Revisão: Mirtes Leal e Ivan Hegenberg | Impressão: LGE Editora
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Voyager 2 e a saudação de paz dos terrestres
(Texto de Steven Pinker dentro do livro "Como a mente funciona" (Cia das Letras). Itálicos meus)
"Em algum lugar além das fronteiras de nosso sistema solar, arrojando-se pelo espaço interestelar, há um fonógrafo e um disco dourado com instruções hieróglifas na capa. Foram colocados na sonda espacial Voyager 2, lançada em 1977 para nos transmitir fotografias e dados dos planetas distantes de nosso sistema solar. Agora que passou por Netuno (o livro foi escrito originalmente em 1997) e sua emocionante missão científica está encerrada, ela serve como um cartão de visita interplanetário que deixamos para algum viajante espacial extraterrestre que possa vir a pescá-la.
O astrônomo Carl Sagan foi o produtor do disco; ele escolheu imagens e sons que sintetizam nossa espécie e nossas realizações. Sagan incluiu saudações em 55 línguas humanas e uma "língua de baleia" (assistam a Procurando Nemo e o baleês), um ensaio sonoro de doze minutos composto do choro de um bebê, de um beijo e de um registro de eletroencefalograma das meditações de uma mulher apaixonada, além de noventa minutos de música, com exemplos de diferentes culturas do mundo: mariachi mexicana, flautas-de-pã peruanas, raga indiana, um cântico noturno navajo, uma canção de iniciação para meninas pigméias, uma música sakuhachi japonesa, Bach, Beethoven, Mozart, Stravinsky, Louis Armstrong e Chuck Berry cantando "Johnny B.Goode".
O disco também envia uma mensagem de paz de nossa espécie para o cosmo. Em um involuntário ato de humor negro, a mensagem foi proferida pelo secretário-geral das Nações Unidas na época, Kurt Waldheim. Anos depois, historiadores descobriram que Waldheim passara a Segunda Guerra Mundial como oficial do serviço secreto em uma unidade do exército alemão que perpetrou represálias brutais contra guerrilheiros da resistência nos Bálcãs e deportou a população judaica de Salonica para campos de concentração nazistas. É tarde demais para chamar a Voyager de volta, e essa piada sarcástica sobre nós circulará para sempre pelo centro da Via Láctea."
sábado, 20 de outubro de 2012
A quantas anda a astronomia amadora, por Vanessa Barbara
(Via Folha, em 07/10/2012)
De rosto redondo e bochechas fartas, o dr. Aristóteles Orsini formou-se em medicina em 1933 pela Universidade de São Paulo. No ano seguinte, defendeu a tese de doutorado "Fermentos Amilolíticos Encontrados em Sementes de Leguminosas", e pouco depois assumiu a cadeira de professor-assistente de física da Faculdade de Farmácia e Odontologia da USP.
Em 1935, foi aprovado em concurso de livre-docência com a tese "Algumas Constantes Físicas de Tinturas Oficinais". Chegou a chefe do Serviço de Radiologia da Escola Paulista de Medicina. Em 1947, tornou-se catedrático de física com a tese "Isótopos Radioativos". Outro destaque de sua produção é o artigo "O Emprego dos Raios X no Estudo dos Expectorantes".
Filatelista e numismata, o prof. Orsini também fundou a Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo (AAA) e foi diretor da Escola Municipal de Astrofísica (EMA), anexa ao planetário do Ibirapuera, que hoje leva seu nome.
O patrono da astronomia amadora ilustra bem o perfil de quem estuda informalmente os astros no Brasil. São cerca de 4.000 entusiastas, de geólogos a pedagogos, além de engenheiros, arquitetos, matemáticos, médicos e curiosos que se reúnem para desvendar o céu, voltando às carteiras escolares em anacrônicas discussões sobre nebulosas, supernovas e cometas, essas "estranhas estrelas de cabelos longos".
FUNDAMENTOS
No auditório da EMA, 18 alunos tiveram um semestre de aulas sobre os fundamentos da ciência --o curso 250, Astronomia Geral. O professor, Paulo Gomes Varella, é um efusivo senhor de bigodes que lembra um docente dos tempos de ginásio, daqueles que tentam transmitir aos alunos seu vasto amor pelas equações de segundo grau.
As aulas, nas tardes de quinta, tiveram início em março de 2011, num prédio vizinho ao planetário do parque do Ibirapuera. A despeito das expectativas depositadas no moderno sistema de fibra óptica do novo projetor alemão StarMaster ZMP, só a última aula foi realizada no planetário --as demais se deram em diminutas salas com lousas brancas e projetores de PowerPoint. Os cursos têm uma taxa única que varia de R$ 18 a R$ 36.
Varella, 55, tem sotaque paulistano carregado e é um trocadilhista incansável. Tem formação em geologia e meteorologia (USP) e pós em ensino de astronomia (Unicsul). Dá aulas na EMA desde 1976, foi chefe do Observatório Astronômico da instituição e publicou "Reconhecimento do Céu" (Editora UnB, 1991, esgotado), além de cartas celestes e guias práticos para observação de estrelas, constelações e chuvas de meteoros. É o expositor mais ativo da história do planetário, com 1.750 apresentações ao vivo das sessões de cúpula.
Fundada em 1961, a EMA oferece cursos introdutórios (Reconhecimento do Céu e Astronomia do Sistema Solar) e avançados, como Cosmologia, Mecânica Celeste, Evolução Estelar e Astronomia Esférica.
Nas aulas básicas, o professor discorre sobre os sistemas solares, conjunto de astros cuja principal interação é gravitacional, e sobre os planetas, "corpos errantes que caminham entre as estrelas". Dá uma informação básica que quase ninguém sabia: a principal diferença observacional entre estrelas e planetas é que eles não "piscam" --são pontos de luz fixa, sem a cintilação característica das estrelas.
Ao contrário dos asteroides, que vivem envoltos em poeira e são astros batatiformes (de massa pequena e alongada), planetas têm massa suficiente para assumir forma esférica e limpar a vizinhança, isto é, sua órbita. Asteroides também não têm atmosfera e, por isso, são cravejados de crateras provocadas pelo impacto com outros corpos celestes (o que o professor chama de celulite astrofísica). Em relação aos planetas, asteroides têm dimensões muito pequenas.
A turma anotou com fúria discreta informações sobre a observação de Saturno, que no ano passado atingiu um brilho considerável, e surpreendeu-se com a notícia de que em São Paulo é possível ver cinco planetas a olho nu: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. (Intrépida, a repórter conseguiu identificá-los ao longo do ano, com destaque para a notável inclinação de Saturno e as quatro luas de Júpiter. A título de gabolice, dizem que Copérnico, em seu leito de morte, confessou jamais ter visto Mercúrio.)
Aos que não possuem familiaridade com as constelações e não se sentem à vontade com planisférios de papel, Varella indica um software de astronomia para iPhone: o Stellarium, que é grátis e reconhece os astros por GPS, basta apontar o aparelho para o céu.
O professor falou da inclinação das órbitas dos planetas com relação à eclíptica (órbita da Terra) e da razão pela qual estamos todos amarfanhados em torno do Sol (atração gravitacional entre massas). Explicou por que em 1986 não vimos o cometa Halley com o mesmo esplendor de 1910 --é que, no início do século, o ângulo de visão foi de 90 graus, sendo possível observar todo o seu comprimento.
Segundo relatos da época, e conforme registrado em "A Comet Called Halley", de Ian Ridpath (Cambridge University Press, 1985), em 1910 a cauda do cometa chegou a varrer a Terra, gerando boatos apocalípticos de toda sorte. Varella alerta que não é possível prever o ângulo da próxima passagem, em 2061, já que o astro percorre um longo caminho e sua órbita é alterada por gigantes como Saturno e Júpiter.
As variáveis são múltiplas e complexas, ou seja, astronômicas. "Você acha isso complicado?", repetia o professor, a respeito de qualquer coisa. "Complicados são os cálculos das órbitas dos astros."
Também complicados são os movimentos da Terra, que não se limitam à rotação e translação; incluem precessão dos equinócios, nutação, variação da excentricidade da órbita, variação de latitudes da obliquidade da eclíptica, deslocamento da linha dos apsides, rotação da Via Láctea e, ufa, movimento de expansão do Universo.
Na astronomia, afirma Varella, "abandonam-se as unidades convencionais de medida, do contrário os números ficariam desconfortáveis". É por isso que, em vez de quinquilhões de quilômetros, usam-se parsecs e anos-luz --que, a propósito, são unidades de comprimento, não de tempo. "Não faz sentido dizer: 'Faz uns dez anos-luz que não te vejo.'" Apesar de tudo, é difícil conceber essas distâncias de fato.
Um amargurado Varella não resistiu à piada e disse que Halley passa uma vez a cada 76 anos e pode ser visto durante só quatro meses: "É como a vida do ser humano, uns quatro meses de felicidade e o resto de martírio. Quando muito".
AMADORES
A astronomia é uma das poucas áreas em que os amadores são maioria e contribuem com a comunidade científica profissional, dada a investigações mais segmentadas, sem tantas observações diretas por telescópios. Suas pesquisas envolvem registros eletrônicos, análises de dados em laboratório, exercícios de matemática bruta e desenvolvimento de teorias.
Os amadores, por sua vez, perscrutam o céu à moda antiga --com telescópios e binóculos de menor porte--, sem depender de orçamentos apertados e da onerosa locação de aparelhos em observatórios internacionais. Seus diminutos instrumentos favorecem explorações que volta e meia complementam a dos profissionais: acompanhamento intensivo de asteroides, galáxias, manchas solares, exoplanetas, cometas e a Lua.
Alguns são excelentes construtores de telescópios. Uma área que está praticamente nas mãos deles é a de estrelas variáveis (sistemas binários), para a qual, segundo Varella, "ninguém tem saco".
Trata-se de observar estrelas que, com o tempo, variam de brilho. Isso pode ser causado por mudanças internas da estrela ou por influência externa, como um eclipse entre estrelas de um sistema binário. Trabalho de paciência e observação bruta, uma braçal coleta de dados relegada aos amadores.
Uma sistematização nacional dos trabalhos desses diletantes de países latinos aconteceu em 1988, com a fundação da Rede de Astronomia Observacional (REA), que zela pelo rigor no método e na coleta dos dados, para que se prestem a trabalhos científicos.
O forte da REA é a descoberta de supernovas, estrelas maciças que, num estágio avançado de evolução, explodem, emitindo um brilho intenso, para depois ir perdendo o fulgor. Nos últimos sete anos, 15 delas foram reveladas pelo programa de busca Brazilian Supernovae Search, desde 2001, em parceria com o Centro de Estudos Astronômicos de Minas Gerais.
Outro exemplo digno de nota é a descoberta de um cometa na noite de 28 de dezembro de 2002 por um brasileiro da REA, o gaúcho Paulo Holvorcem, em conjunto com um norte-americano. O cometa foi batizado de Juels-Holvorcem.
Assim, embora a denominação "astrônomo amador" remeta ao diletantismo, muitos desenvolvem estudos científicos, coordenam trabalhos e publicam resultados em revistas especializadas --a diferença é que não possuem formação acadêmica específica. O exemplo mais lendário é o de Clyde Tombaugh, agricultor norte-americano que construiu um telescópio usando partes de um Buick 1910 e peças de uma batedeira de leite de sua fazenda.
Tombaugh observava e desenhava tudo o que lhe parecia interessante no céu. Um dia, encaminhou suas anotações ao Observatório Lowell, no Arizona, em busca de conselhos. Para seu espanto, ofereceram-lhe um emprego como astrônomo assistente.
Em 1929, foi contratado para levar a cabo uma pesquisa iniciada em 1905 por Percival Lowell. O alvo era um "planeta X", localizado para lá de Netuno. Dez meses mais tarde, em 13 de março de 1930, após passar noites em claro na cúpula gélida do observatório, Tombaugh, 24, passaria à história como o descobridor de Plutão.
SURPRESA
Um tanto afastados das grandes descobertas, vários alunos da EMA foram pegos de surpresa pela notícia de que as estrelas estão (muito) mais distantes de nós do que os planetas. Se a Terra estivesse localizada na Escola de Astrofísica e Netuno no lago do Ibirapuera, Alpha Centauri estaria em Queluz (a 220 km de São Paulo), viagem que levaria 104 mil anos só de ida. (Também chamada de Toliman, ela é a estrela mais próxima da Terra além do Sol.)
A classe era formada por alunos de diferentes idades e profissões. O mais novo era John Riedel, 13, estudante do oitavo ano do ensino fundamental e apaixonado por astronomia via Discovery Channel. Havia um senhor peruano chamado Iván Palacios, que sempre chegava cedo, um casal de aposentados aficionado por softwares de astronomia, o jornalista Jorge Luiz de Souza e uma ex-bailarina e personal trainer, Ana Maria Pereira, 52, que ficou impressionada com a didática do professor.
"Como ele de fato gosta de astronomia, conduz o curso com tanto carinho que não há como não aprender e se encantar com o universo", declarou. "Acho que, pela minha profissão, movimento é algo que me encanta e nada melhor que estudar o universo para entendê-lo melhor."
A estudante de administração Janisse Paiva de Oliveira, 26, participa de quase todas as atividades da EMA. Cursou Reconhecimento do Céu I simultaneamente a Física Estelar (Introdução à Astrofísica), com Irineu Gomes Varella, e achou esta última bem complexa. "Aprendemos sobre a temperatura dos corpos celestes, as distâncias, a paralaxe, o teorema de Pitágoras e espectroscopia", explicou. "Tinha muita gente fazendo contas."
Num folder da escola, o artista Guto Lacaz confessou matricular-se em um ou dois cursos por semestre: "Comecei com Astronomia Geral, com a professora Regina Atulim. Cometas, Astronomia Esférica, Sistema Solar, Eclipses, Efemérides, Tempo e Calendários... Reconhecimento do Céu, Evolução Estelar... já fiz alguns três vezes!", exclamou, elogiando os professores Paulo e Irineu Varella. "Conhecimento, bom humor e giz!"
A escola também oferece palestras esporádicas sobre outros temas, como "Astronomia com o Planeta Mercúrio", ocorrida num sábado à tarde, e uma série em homenagem à Semana de Radioastronomia, em outubro de 2011. Numa aula, ministrada por um jovem professor da UFRJ, falou-se das descobertas cosmológicas obtidas pela sonda WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe) com a radiação de fundo da nossa galáxia. É uma das mais fortes evidências observacionais do modelo do Big Bang de criação do universo.
Comentou-se o formato peculiar das imagens, muito parecido com o emblema do Batman. Fora isso, o resto da exposição foi praticamente incompreensível. "Mede-se o espectro de potência em função do ângulo e momento do multipolo", explicou o rapaz, com a ajuda de gráficos inexpugnáveis e equações igualmente escandalosas. Alguém fez uma pergunta cuja resposta era "18 avos de segundo". Diante do silêncio, ele passou para sua especialidade: nuvens moleculares e astroquímica.
Quando desandou a falar de um tal espectro "maser", suspeitou-se que estivesse inventando e alguns desistiram de tentar entender. A introdução à astronomia geral parecia mais ao alcance dos comuns mortais. Uma revelação banal que causou espécie na turma foi a de que os meteoroides, ou cometas, têm o tamanho de uma ervilha. "Ervilha, feijão, grão-de-bico. Os maiores são do tamanho de laranjas", explicou Varella, creditando o alto brilho dos cometas a um fenômeno de ionização decorrente de sua altíssima velocidade ao entrar na atmosfera terrestre.
FURAQUINHOS
Em 20 horas-aula, até o fim do semestre, falou-se da diferença entre planetas telúricos e jovianos --os primeiros têm composição química e densidade próximas às da Terra; os últimos, gasosos, são parecidos com Júpiter.
Este, aliás, gira tão velozmente que tem faixas gasosas alinhadas no sentido de sua rotação --vista a olho nu, a famosa estrutura em forma de olho tem 3,5 vezes o tamanho da Terra, e é provavelmente uma tempestade colossal que vem ocorrendo há três séculos. "Uma espécie de furacão, sendo que, perto dele, os nossos são 'furaquinhos'", comparou Varella.
O professor também informou que "se jogássemos os planetas na água", todos afundariam, menos Saturno, que tem a densidade menor do que uma rolha e, portanto, boiaria". Outra informação importante: Galileu Galilei não identificou os "anexos" laterais do planeta como anéis: pensou que se tratasse de um astro triplo. Na mesma época, outros foram mais criativos: concluíram que Saturno era dotado de orelhas.
Palmeirense roxo e fã da série "Arquivo X", Varella é uma unanimidade. Sempre de bom humor, compartilha o vício pela astronomia com o irmão Irineu, 59, e com a mulher, Regina Atulim, 48, ambos professores da EMA. "É uma família de loucos. Imagina como são as nossas conversas em casa."
Varella é diretor do Observatório Céu Austral, entidade fundada em 1987 para difundir a astronomia e as ciências da Terra. Ele costuma dizer que fez tudo errado: se tivesse escolhido a astrologia e batizado o grupo de "Seu Astral", em vez de "Céu Austral", certamente ganharia mais dinheiro.
Interessou-se pela ciência aos 14, trabalhando como guia do relógio de sol e sonoplasta do planetário. Tem um vozeirão de dublador. Sabe contar histórias e prender a audiência; seu relato sobre a sequência de Titius-Bode --controversa equação criada para calcular distâncias planetárias-- deixou todos grudados na cadeira. Guarda na memória uma infinidade de distâncias interestelares, dimensões, volumes, composições químicas e temperaturas.
Ele ensina como coletar meteoritos em casa, descreve os siderólitos como se fossem pés-de-moleque (sendo os amendoins as partes rochosas) e confessa, emocionado, que gostaria de ter conhecido Hiparco (morto c. 127 a.C.) pessoalmente. Varella crê na possibilidade de vida fora da Terra, mas "daí a dar um passo além e acreditar em OVNIs, é outra história".
Fala com entusiasmo da Cratera de Colônia, que ninguém na classe conhecia e que é praticamente ignorada no meio acadêmico. Localizada na Zona Sul de São Paulo, em Parelheiros, tem 3,6 km de diâmetro e foi possivelmente provocada pelo impacto de um meteoro de cerca de 200 metros, há uns 5 milhões de anos. Sua profundidade máxima é de 400 metros.
Desde 1989, a área foi ocupada por loteamentos irregulares que surgiram com a instalação do Presídio de Parelheiros no interior da formação geológica. Segundo a prefeitura, hoje há 30 mil pessoas morando em Vargem Grande, em porções internas e externas da cratera. A ocupação desconfigurou parte da borda, mas, vindo pela estrada de Colônia, lá de cima dá para ver o contorno da estrutura. "Provavelmente o meteorito ainda está encravado lá dentro", diz Varella, lamentando a escassez de escavações científicas na área.
Na última aula do semestre, ele obteve autorização para abrir uma vitrine onde estão expostos os meteoritos. Com as duas mãos, tomou um fragmento do segundo maior meteorito do Brasil, o Santa Luzia, caído em Goiás, em 1919. Do tamanho de uma bola de boliche, ele foi passando de mão em mão. O Santa Luzia é feito de uma liga metálica inexistente na Terra, composta quase que exclusivamente de ferro e níquel de altíssima densidade. A idade estimada é de 4 bilhões de anos. "Quero que vocês tenham a sensação de tocar em um corpo celeste que não a Terra", explicou.
Um aluno conta que foi um desses momentos em que entendemos uma coisa não só com a mente, mas com o corpo, com a pele. "Lembro quando li pela primeira vez que estamos em cima de uma pedrinha que flutua no espaço", comentou. "O frio, o arrepio que tive ao pensar nisso me deixou quase paralisado. Deu até vertigem."
O objeto pesa 22 kg --bolas de boliche têm até 7,25 kg--, ou seja, só pode ser feito de um material muito condensado e singular. Uma rocha densa, gelada e metálica que veio do espaço. "Vou falar de novo: VEIO DO ESPAÇO!", ressaltou uma aluna, ainda incrédula.
OBSERVATÓRIO
Olhando de longe, mais precisamente de um telescópio dobsoniano, até parece que a Escola Municipal de Astrofísica é um centro de excelência internacional com verba milionária, equipamentos modernos e total subsídio do governo. Se a estrutura funciona, é por pura tenacidade dos envolvidos, sobretudo os professores.
No último sábado de cada mês, o planetário organiza uma sessão noturna de observação com telescópios na laje da escola. "A gente tenta, na medida do possível, promover essa atividade", comentou o diretor dos planetários da cidade, João Paulo Delicato, um rapaz de voz calma que é também coordenador da Sociedade Brasileira para o Ensino da Astronomia. Ele está no comando dos planetários desde janeiro de 2011.
Como todo bom astrônomo amador, Delicato começou com uma licenciatura em ciências exatas, passou a pesquisador do departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos e criou o Laboratório de Magnetohidrodinâmica da USP. Trabalhou nos planetários de Brotas e de Campinas e acabou presidente da Associação Nacional de Foguetes Amadores, a ANFA.
Ele se considera na obrigação de promover esses eventos ao público apesar da precariedade das instalações do terraço, que possui fios de radiotelescópio espalhados pelo caminho e inexplicáveis reentrâncias arquitetônicas que tapam partes do céu e deixam as laterais da laje completamente vazadas. "Pra vocês terem uma ideia, o arquiteto que fez o planejamento do prédio da EMA tinha decidido que o espaço de observação com cúpula ficaria só de enfeite para a população passar e olhar", explicou.
Daí a necessidade de orientar bem o grupo antes das observações. "A laje é aberta e vazada, então, quem está com criança pequena, por favor fique de olho, segurando a mão. Nada de correr. Até porque a gente não pode deixar a luz acesa com muita intensidade, senão ofusca a observação", explanou Delicato a uma plateia de aproximadamente cinquenta pessoas. A maioria nunca tinha usado um telescópio.
Ele prosseguiu: "Lá em cima está muito escuro, tenham cuidado ao subir as escadas. É para andar com calma, olhando bem para não tropeçar em nenhum fio e nem nos aparelhos".
Segundo Paulo Varella, o prédio da EMA foi construído na década de 60 pela Comissão de Construções Escolares do Município, que não levou em conta a funcionalidade do observatório. A preocupação foi mais estética, com o projeto arquitetônico, e é por isso que até hoje a cúpula prateada do terraço continua sem uso.
"Após a construção, chegou-se a abrigar um telescópio construído aqui mesmo no planetário, com 30 cm de abertura, mas isso só durou uns meses. O problema era que, quando passava um ônibus na avenida República do Líbano ou na Pedro Álvares Cabral, a cúpula tremia." O projeto original não previa a instalação de uma coluna de concreto junto ao solo, independente da estrutura do edifício, para isolar o telescópio de vibrações.
Hoje, a administração da escola tenta pelo menos reativar a cúpula para as atividades com o público. "Seria interessante se, no futuro, a gente pudesse ter essa coluna. Isso é um trabalho de engenharia, porque vai ter que furar esses dois pisos pra colocá-la - isso se houver realmente a intenção de transformá-la numa cúpula observacional. Porque, se for só para uso didático, acho que podemos improvisar alguma coisa", garante Varella, que pensa em instalar calços de borracha nos pés do telescópio para amortecer vibrações externas, à maneira do que é feito nas Star Parties americanas, famosos encontros de astrônomos amadores.
"Seria uma tentativa. Se não der certo, podemos tentar outra coisa: montar a base de concreto do telescópio em cima de um colchão de areia. A areia é um material não consolidado e entremeado de ar, que não transmite vibrações e até ajuda a absorvê-las." Numa demonstração de otimismo, o grupo já faz reparos na abertura da cúpula.
Por enquanto, porém, as opções são mambembes. Orientados pelos monitores do planetário, os visitantes sobem à laje e fazem fila atrás de três telescópios ETX-125 EC, da marca Meade, cada um com 5 polegadas de diâmetro e controle eletrônico, no valor de 1,5 mil dólares. Há também um LX 200 da Meade, de 12 polegadas com GPS, que custa 7 mil dólares. Delicato especifica quais astros estarão visíveis em cada um deles. Em 2011, devido ao mau tempo, só houve três observações abertas ao público: em maio, agosto e dezembro.
No evento de agosto, com o céu de inverno a pleno vapor, os corpos observados foram a nebulosa planetária NGC 6302, também chamada de Nebulosa da Borboleta; a constelação de Scorpius (Escorpião), por onde passa o centro da nossa galáxia; e a estrela Antares, uma supergigante vermelha 700 vezes maior que o Sol. Pelo telescópio, dá pra ver que Antares é um sistema binário, ou seja, na verdade são duas estrelas.
Na observação de dezembro, às vésperas do Natal, os três telescópios foram apontados para o planeta Júpiter, com diferentes tipos de aumento. Foi possível distinguir as manchas do planeta, sua coloração alaranjada, algumas estruturas e suas quatro luas. Também houve uma breve observação de Achernar, estrela achatada e azulada que é a mais brilhante da constelação Eridanus.
Deparando-se com certa ansiedade e muxoxos esparsos, João Paulo Delicato insistiu que é preciso ter calma e concentração. "Não é como as imagens do Hubble que estamos acostumados a ver. Não é só encostar a cara no telescópio que as coisas saltam aos olhos e você vê Marte e os marcianos acenando. Depende de paciência e de uma certa delicadeza", observou. "Se for um planeta, você vai enxergar primeiro uma bolinha, depois um contorno e um detalhe ou outro. No fim das contas, essa manchinha que você viu tem milhões de quilômetros de diâmetro, está a centenas de anos-luz de distância e é na verdade uma coisa muito interessante cuja imagem levou um tempo enorme para chegar até nós. É importante ter isso em mente."
No fim da fila, um grupo de rapazes vestidos para a balada parecia alvoroçado com a experiência, ocupando-se em defender a existência de extraterrestres para o resto da fila. Um deles achava um erro terem enviado ao espaço uma sonda com informações sobre a Terra. "Os ETs vão pegar todos aqueles dados e invadir o planeta", afirmou, exaltado, na certeza de estar impressionando as meninas.
ASSOMBRO
Caminhando pelo parque, Paulo Varella consegue reconhecer de longe quem são os loucos que estudam na Escola de Astrofísica: aqueles que olham mais pra cima do que pra baixo. E tropeçam. Certa noite, ele mesmo carregava uma caixa de equipamentos e quase foi ao chão, preocupado em sondar o céu à procura de Vênus.
Ministrado no planetário com o auxílio do projetor, o curso de número 637 - Reconhecimento do Céu 1 - é o mais procurado da instituição. Muitas vezes, as 120 vagas se esgotam. No segundo semestre do ano passado, 76 pessoas se inscreveram.
As aulas aconteceram às terças-feiras, das 19h30 às 21 horas, com uma turma vespertina às quintas-feiras formada pelos ex-alunos de Astronomia Geral. Aula a aula, todos procuravam se sentar nos mesmos lugares para facilitar a memorização - menos uma vez, em outubro, quando o projetor "deu chilique" e não estava funcionando devidamente, projetando o norte no sul e gerando outras imprecisões espaciais. A questão foi resolvida com a expertise de Varella na arte do improviso: ele desligou as letras verdes dos pontos cardeais e pediu que os alunos trocassem de lugar. "Finjam que o leste é pra cá", orientou, pedindo perdão pelo despautério da proposta.
Vez ou outra, o aparelho sofria panes menores ou saía de esquadro, e aí valia o conhecimento bruto do professor, que corrigia manualmente os problemas e botava a turma (e o aparelho) de volta no eixo. Em várias ocasiões, ele foi capaz de continuar a aula normalmente, falando sobre coisas complicadíssimas "enquanto, com um martelo e uma talhadeira, vou tentando consertar o projetor". Para os íntimos, o StarMaster é também chamado de "A Bolinha".
Reparos também são necessários no caso da esfera armilar instalada diante do planetário, uma estrutura giratória de ferro que permite a visualização espacial do movimento celeste, tendo como referência a cidade de São Paulo. Executada por um artista plástico, ela apresenta imprecisões de nomenclatura que precisam ser corrigidas verbalmente pelo professor. Além disso, só pode ser destrancada com antecedência - por segurança, a esfera é presa por um cadeado e correntes, já que uma criança "quase perdeu o braço girando ali dentro".
Também têm problemas os planisférios impressos pela Prefeitura em 2005 para a inauguração do planetário do Carmo, distribuídos gratuitamente aos alunos no final do semestre. Por algum motivo, o leste e o oeste foram assinalados no lugar errado, a muitos graus de distância de sua localização efetiva, como se os diagramadores houvessem tentado "centralizar" as legendas.
No interior da cúpula, a dinâmica das aulas era sempre a mesma: uma explanação teórica no início, com as luzes acesas, e depois o fechamento das portas, o breu e as estrelas surgindo garbosamente no céu. Mesmo na última aula, quando a turma já deveria estar acostumada, ouviam-se expressões de assombro seguidas de um silêncio quase religioso, sobretudo quando as estrelas mais fracas, de quinta ou sexta grandeza, terminavam de preencher a abóbada.
Paulo Varella falou orgulhoso do alemão Johannes Bayer, advogado de formação e astrônomo amador que inventou a atual nomenclatura estelar. Seguindo a ordem decrescente de brilho, pega-se uma letra do alfabeto grego e junta-se à forma genitiva da constelação em latim, o que resulta em nomes como Alpha Centauri (a estrela mais brilhante da constelação de Centaurus) e Eta Carinae (a quinta estrela mais brilhante de Carina), que está prestes a explodir e virar supernova. "Se a Terra estiver no caminho, estamos perdidos", comenta um dos professores da Semana de Radioastronomia.
Já as cores das estrelas estão diretamente relacionadas às suas temperaturas superficiais. As mais quentes são azuis (Rigel, Achernar), e, em ordem decrescente de calor: brancas (Vega, Sirius), amarelas (nosso Sol, Capella), alaranjadas (Arcturus, Aldebaran) e vermelhas (Antares, Betelgeuse).
A cada aula correspondeu um modelo de céu e sua respectiva constelação-símbolo: em pleno inverno, começamos pelo céu de verão, o mais simples, que entrou em campo com Orion, as Três Marias e Sirius, a estrela mais brilhante do céu noturno. Depois passamos para o céu de outono (constelações Leo e Crux), inverno (Scorpius) e primavera (Pegasus). Varella iniciava a projeção recapitulando as aulas anteriores e agregando uma ou outra novidade, de modo que, lá pelas tantas, a crença geral era de sairíamos confusos o bastante para estranhar a própria Lua.
Porém, aos poucos, as coisas foram se encaixando. Incentivado por um chilique permanente do projetor, Varella não ativava os desenhos artísticos das constelações (linhas imaginárias que ligam as estrelas), limitando-se a apontar suas respectivas formas com a caneta laser para que os alunos as visualizassem mentalmente.
A todo instante, lembrava que os desenhos saíram da imaginação dos antigos e que não faziam necessariamente sentido. "Alguém aí está conseguindo ver um homem vertendo água de uma ânfora? Parabéns, porque eu não vejo nada", comentou sobre a constelação de Aquarius. Ou: "Não dá pra saber se isso é cavalo, peixe, borboleta ou princesa."
Foi assim que, para muitos, a constelação Piscis Austrinus passou a ser imediatamente reconhecida sob a alcunha de Pimentão Celestial, e Sagitarius virou Bule de Chá, para fins didáticos. Em Eridanus há uma curva de estrelas com um perturbador formato de panetone, aclamada pela turma como O Bolsão do Panetone (a maioria dos alunos não havia jantado). Já Canis Major parecia um cão bassê com as patas dianteiras num galope celestial. Muito repetido foi o trocadilho "no meu tempo, havia láctea", um sucesso até entre os alunos repetentes.
"No final da aula, lá pelas nove, nos reuníamos na rosa-dos-ventos, ao ar livre, para tentar caçar as poucas estrelas que apareciam no céu", conta Nicol Alexander Alfaro, jovem chileno radicado no Brasil que se formou em engenharia elétrica, mas largou tudo para estudar produção audiovisual. "A maioria das vezes estava nublado, uma vez ou outra o céu um pouco mais aberto, mas só conseguíamos ver umas poucas estrelas. O Paulo, com aquela precisão e sotaque característicos, apontava seu raio laser para uma estrela solitária e sentenciava: 'Aquela é RRRRigel'". E era mesmo.
BLECAUTE
Ao ar livre, os caçadores de estrelas do curso quase nunca tinham sorte. Ainda mais no último ano, depois que o Parque do Ibirapuera ganhou um sistema de iluminação 350% mais potente do que o anterior.
Sem consultar a Escola de Astrofísica, a administração trocou as lâmpadas tradicionais de vapor de sódio ou mercúrio por lâmpadas LED de 113 watts, que emitem luz branca. As bases de 13 metros também foram reduzidas para 5 metros de altura, para que as copas das árvores não interferissem na projeção de luz. A troca do sistema custou 11 milhões de reais, compartilhados entre Eletropaulo e o Departamento de Iluminação Pública de São Paulo, o Ilume.
A medida visava melhorar a segurança do parque, mas, para os astrônomos da EMA, foi como um assalto à mão armada. "A poluição luminosa é a maior inimiga da observação", sentenciou o diretor do planetário, enquanto regulava um telescópio.
Mesmo com um céu sem nuvens e os aparelhos de alta precisão espalhados sobre a laje, era difícil obter um bom horizonte de observação. A iluminação ultra potente deixava o céu esbranquiçado, opaco, sem contraste. Inadequada, desperdiçava boa parte da energia para cima, ofuscando o céu e a terra. "Inclusive já é possível fazer cirurgias lá na calçada", informou Paulo Varella.
Na rosa-dos-ventos, após as aulas, ele instruía os alunos a taparem com as mãos as lâmpadas mais próximas. A cena era surreal: uma dezena de pessoas agrupadas no meio do nada, com as mãos estendidas em posições aleatórias, olhando para cima. "Haja estilingue", brincou o professor, que desde então procurou convencer a administração do parque a instalar um interruptor para apagar as lâmpadas em torno do planetário, nem que fosse só no horário das aulas.
Há alguns meses, o problema foi resolvido. Agora é possível apagar as luzes no entorno do edifício da EMA, o que melhora muito as observações na laje. Além disso, foi instalada uma iluminação mais direcional nos postes. Foi um avanço, mas ainda há muito a fazer. "É por isso que a gente ama blecaute", o professor resumiu.
Para além dos esforços em adequar a iluminação, Varella afirma que tentou instalar um posto de observação no jardim da escola, às margens do lago, próximo ao chamado Patódromo - praça circular que à tarde é invadida por patos e à noite cai numa relativa escuridão. A ideia era distribuir pelo espaço três pequenas cúpulas fixas para os telescópios ETX, recém-doados pela Fundação Vitae. "Cada cúpula teria no máximo uns 2 metros de altura e 1,80 metro de diâmetro, só pra abrigar o instrumento e evitar que, a cada observação, tivéssemos que transportá-lo e montá-lo. Sobretudo porque são aparelhos delicados e pesados, de uns 55 kg cada, que podem ser descolimados com facilidade."
Ele encaminhou o projeto ao Condephaat, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, que negou o pedido. A justificativa? "Quebraria a ambiência do parque." Além disso, Varella descobriu que o parque inteiro fora tombado, não só os edifícios como o projeto paisagístico, e por isso não se permitem novas construções.
Em matéria estelar, a sonolência generalizada do poder público não é novidade. Em 1952, o prof. Aristóteles Orsini encomendou um projetor de última geração da Alemanha (o Zeiss 3) e deu início aos trabalhos para a construção do primeiro planetário paulista, no Ibirapuera, a ser inaugurado no quarto centenário da cidade. Após passar um tempo retido na alfândega, o aparelho ficou encaixotado no Viveiro Manequinho Lopes à espera do término da construção do edifício. A inauguração se deu em 1957, três anos depois do previsto.
O mesmo ocorre ainda hoje com o planetário do parque do Carmo, em Itaquera, fechado há cinco anos. O milionário projetor Universarium 8, da Zeiss, foi adquirido em 1996 e ficou encostado num depósito por quase uma década. Bancado pela Telefônica, o edifício em si começou a ser construído em 2002, com uma cúpula de 20 metros de altura - maior que a do Ibirapuera. Já nessa época, devido à prolongada inatividade, o projetor precisou de reparos e foi enviado de volta a Alemanha.
A inauguração ocorreu em novembro de 2005, três anos e 11 milhões de reais depois. Contudo, em fevereiro de 2007, o edifício começou a apresentar goteiras e rachaduras e foi fechado para reformas. Por conta da umidade, os equipamentos voltaram a apresentar problemas.
Em junho do ano passado, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente manifestou-se sobre o assunto para um jornal da Zona Leste. Declarou que a Prefeitura estaria "viabilizando trâmites para a compra das peças avariadas do projetor" e que "todas as medidas formais estão sendo tomadas para que o planetário volte a funcionar o mais rapidamente possível".
Nas últimas semanas, o projetor voltou a funcionar e houve algumas sessões experimentais para escolas. A reabertura oficial do Planetário do Carmo não deve demorar.
FREITAS
Quando o assunto é telescópio ou binóculo quebrados, a senha é "Passa no Freitas", acompanhada de um misterioso número de telefone. De cabelos grisalhos, olhos castanhos e voz grave, Roberto Freitas conserta e monta aparelhos ópticos em sua garagem, numa bucólica casa de vila no Cambuci.
É formado em administração de empresas com pós-graduação em marketing. Trabalhou na Victorinox, fábrica suíça de materiais de cutelaria, até que, há dez anos, decidiu pedir um afastamento para dedicar-se integralmente à construção e manutenção amadora de telescópios. Batizou seu empreendimento de Razão Focal. "Eu acho que sempre fui um astrônomo", confessou, enquanto examinava um binóculo SkyMaster da marca Celestron, de 15x70 milímetros.
O cliente que procura seus serviços ópticos já chega avisado de que deve reservar uma tarde inteira para a visita, pois Freitas adora conversar. Ainda que esteja acostumado a colimar (alinhar) um instrumento em poucos minutos, ele gasta o resto do tempo falando de seu assunto preferido: astronomia amadora. "Já me chamaram de lunático, de professor Pardal, dizem que vivo no mundo da Lua", admite.
De saída para assistir a uma palestra sobre espelhos metálicos no 14o Encontro Nacional de Astronomia, o ENAST, na qual basicamente pretendia discordar de tudo o que fosse dito, ele convida os visitantes a voltarem com mais calma em uma noite de céu limpo. "A gente faz um pão de queijo e brinca com este telescópio", diz, referindo-se a um modelo que ele mesmo montou a partir de peças avulsas.
Freitas não se considera um comerciante e nem se preocupa com o lucro. Gosta de despertar o interesse pela ciência e compartilhar conhecimentos. Sua área de interesse aumenta a cada dia, conforme ele navega na internet em busca de novidades, participa de fóruns e manipula uma infinidade de lentes, adaptadores, tubos de foco e tripés, abarrotados em caixas de papelão nas estantes.
A REVANCHE
"A astronomia é uma experiência de humildade e formação de caráter", escreveu o cientista Carl Sagan em Pálido Ponto Azul. Embora seja uma ciência complexa e intimamente ligada à física e à matemática, ela costuma cativar as pessoas pelo seu aspecto humanista. Numa matéria sobre o Ano Internacional da Astronomia (2009) para a revista da Livraria Cultura, o engenheiro químico Tasso Napoleão descreve o processo: "Primeiro vem o deslumbramento. Depois, aquela sensação de que não passamos da 'mosquinha no cocô do cavalo do bandido'."
A personal trainer Ana Maria Pereira concorda: "Para mim, as aulas foram uma terapia. Aprendi a ver como tudo é grandioso e que podemos passar o resto de nossos dias descobrindo coisas, se quisermos".
Outra coisa que atrai os amantes da astronomia é saber que, em cada ponto do céu que observamos, há um passado diferente. A luz de Alpha Centauri, por exemplo, saiu de lá em novembro de 2007. A de Beta Centauri, em fevereiro de 1522, pouco depois do Descobrimento do Brasil. Paulo Varella costuma dizer que o telescópio Hubble não é só um instrumento óptico, mas um verdadeiro observador do passado, pois suas imagens captam a história longínqua do universo.
"Os números astronômicos são tão gigantescos que olhar para toda a história da civilização é como lembrar de um pequeno espirro ocorrido alguns segundos atrás. Essa sensação é ao mesmo tempo aterradora e libertadora", filosofa um dos alunos, que por humildade não quis se identificar.
Já para Nicol Alexander, o melhor de tudo foi passar horas mergulhado na cadeira, olhando para aquela abóbada. "Mais para o final do curso, estudamos o movimento dos planetas, então o professor acelera o tempo para que tenhamos uma percepção mais clara do processo. Dá até vertigem olhar para as estrelas. Vemos um ano passando em segundos, acompanhamos a dança de Mercúrio, as mudanças da Lua", lembra.
Ele diz que gostaria de fazer os cursos de Reconhecimento do Céu 2, 3 e 4, e "até os confins do Universo conhecido". Sexta-feira passada encerraram-se as inscrições para o tão sonhado "Reconhecimento do Céu 2 - A Revanche", que vai acontecer às terças-feiras à noite, de 9 de outubro a 13 de novembro. Ainda não há previsão para o "Reconhecimento do Céu 3 - A Fronteira Final".
Acessível a curiosos com todo tipo de formação, a astronomia desdenha da nossa arrogância e da ilusão de que estamos numa posição privilegiada do Universo. "Nosso planeta é um grão solitário na vasta escuridão cósmica", definia Carl Sagan. Diante de grandezas assim inconcebíveis, nossas preocupações e angústias caem fatalmente no ridículo. Nas palavras de Sagan: "Não há, talvez, prova maior da tolice das vaidades humanas do que essa imagem distante de nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratar melhor uns aos outros e de preservar e estimar o único lar que conhecemos."
Não há dor nas costas e desilusão amorosa que resista a uma boa aula no planetário.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
A Extinção dos Tecnossauros

A Extinção dos Tecnossauros, do italiano Nicola Nosengo, Editora Unicamp. Ótimo livro.
Texto da Quarta Capa
"Este livro nasce da idéia de que se pode compreender, na verdade, a transformação tecnológica apenas observando dela o lado menos iluminado: seus becos sem saída, suas derrotas. Tecnologias que teriam mudado o mundo e permaneceram confinadas nos laboratórios, produtos que o mercado recusou, máquinas que, após terem sido usadas cotidianamente por décadas, desapareceram e hoje se encontram apenas nos museus. Dinossauros tecnológicos, enfim: tecnossauros. O intento não é este, tão fácil quanto inútil, de dessacralizar ciência e técnica, fazendo escárnio, a posteriori, de algum projetista azarado ou de uma pesquisa de mercado errada; é muito mais o que aproveitar dos fracassos, que são momentos de crise de um sistema, para evidenciar os lugares-comuns nos quais se baseia a nossa percepção da inovação tecnológica. É justamente quando um sistema entra em crise que se abre uma brecha para entendê-lo, porque tudo aquilo que era normalmente dado como certo se revela de repente falso." (negrito meu)
Uma resenha do Digestivo Cultural AQUI.
Além de analisar a história de objetos como o fax (concebido e montado no século XIX - !!!), o livro se dedica também a explorar porque algumas tecnologias sempre "esperadas" pela ficção científica NÃO emplacaram e talvez NUNCA emplaquem: Carros Elétricos e Carros Voadores e Videofones...
(Foto Carro Elétrico em 1904, via Wikipedia)
segunda-feira, 25 de julho de 2011

"Existem dois tipos de verdade: a verdade que ilumina o caminho e a verdade que aquece o coração. A primeira é a ciência, a segunda é a arte. Nem uma é independente da outra nem mais importante que a outra. Sem a arte a ciência seria tão inútil quanto um fórceps nas mãos de um encanador. Sem a ciência a arte seria uma bagunça danada feita de folclore e charlatanismo emocional. A verdade da arte evita que a ciência se torne desumana, e a verdade da ciência evita que a arte caia no ridículo."
Raymond Chandler.
(Via revista Coyote nº21)
terça-feira, 19 de julho de 2011
Índios Cyberpunks

Esta foto não é de um filme. É uma campanha publicitária australiana para um empresa chamada ColorChiefs... Mas acabou servindo de "moldura" para alguns fatos interessantes desta postagem do Coilhouse: estranhas trocas entre tecnologia e pensamento místico. Por exemplo, durante a Segunda Guerra, primitivos ilhéus melanésios "mimetizaram" o comportamento dos soldados de exércitos estrangeiros, chegando a simular marchas militares com rifles recuperados ou feitos de madeira e usando até falsos fones de ouvido de madeira.
Via How to be Retronaut e Coilhouse
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Biologia Especulativa
Pena que só descobri isto agora...
Speculative Evolution Wiki
Um site "wiki" apenas para a discussão e verbetes relacionados a Biologia Especulativa, isto é, às especulações sobre como pode ser a vida em outros planetas e como a evolução pode conduzir a vida no futuro de nosso planeta.
Furahan Biology and Allied Matters
Um blog concentrado em biologia especulativa. Parece bom, os caras analisam até a biomecânica... Serve de apoio ao Planet Furaha, cujo melhor resumo seria um "hard-sci-fi alien biology blog".
Existem outros projetos semelhantes ao Planet Furaha (talvez o mais parecido seja o de Wayne Barlowe que deu origem ao documentário Alien Planet), mas você pode encontrar outros detalhes AQUI (via WebUpon)
(esta música me lembrou o seriado Firefly)
terça-feira, 12 de abril de 2011
Gagarin

Hoje (12 de abril de 2011) faz 50 anos que alguém descobriu que a Terra é azul.
Especial da Folha AQUI. Notícia no Estadão AQUI. Neste site (seria russo, mas está em português)?, lembranças de Gagarin no Brasil.
E, no You Tube, Gagarin tomando cafezinho no Brasil em imagens - provavelmente - da TV Tupi em 1961.
(A imagem veio daqui, via "Hey Oscar Wilde!")
sábado, 12 de março de 2011
Erros do cinema


Como a gente sabe, o cinema costuma tomar grandes liberdades com a realidade para tentar nos fazer engolir a mentira que está passando diante de nossos olhos. Neste link, uma tabela que demonstra as grandes falhas encontradas em filmes de ficção científica. Abaixo vou fazer uma tradução livre dos erros mais constantes praticados por Hollywood citados no IO9:
* Não existe som no espaço.
* Seria uma sorte muito grande encontrar outros planetas com a mesma gravidade que a Terra.
* Planetas deveriam possuir uma variedade de ambientes climáticos e não serem apenas um "Planeta-Deserto" ou "Planeta-Gelado".
* A comunicação com criaturas alienígenas deveria ser muito complicada sem a existência de algum tipo de "tradutor" super-tecnológico.
* E esqueçam a possibilidade de se relacionar ou de procriar com alienígenas (Sinto muito, Spock).
* Seres humanos expostos ao vácuo sem um traje espacial não explodiriam em mil pedaços... E um furo no casco de uma espaçonava mataria a toda tripulação exposta ao vácuo imediatamente.
* Não pode haver fogo no espaço, a não ser que haja oxigênio vazando de alguma forma.
* Asteroides ou outros objetos não flutuariam próximos sem ceder à gravidade uns dos outros e colidirem.
* Não dá para desviar de disparos lasers ou outras armas na velocidade da luz.
* Não há porque se mover em slow-motion na gravidade zero...
* Viagem mais rápida que a luz provavelmente não acontecerá.
(Via Neatorama; imagem Dan McPharlin)
-Falando no assunto, interessante ler o artigo "Ficção científica e ensino de ciências: para além do método de ‘encontrar erros em filmes’", de Luís Paulo Piassi e Maurício Pietrocola que encontrei no Capacitor Fantástico. Segue abaixo um trecho:
"Tem sido comum a proposta de empregar filmes de ficção científica — FC — para introduzir conceitos de ciência em sala de aula (Southworth, 1987; Martin-Diaz et al., 1992; Dubeck et al., 1990; 1993; 1998; Freudenrich, 2000; Dark, 2005).
No entanto, muitas vezes, o potencial didático de uma obra é associado à precisão científica das situações retratadas. Assim, filmes que exibem cenas fantasiosas ou mesmo flagrantemente contrárias ao conhecimento científico seriam didaticamente menos relevantes do que as que trazem situações realistas.
Nas pesquisas em ensino de ciências, no entanto, a noção de “erro” conceitual tem sido examinada com critérios menos valorativos, seja por aquelas baseadas no desenvolvimento cognitivo, derivadas dos trabalhos pioneiros de Viennot (1979) e de Saltiel e Viennot (1985), seja pelas ligadas à história e à natureza do conhecimento científico, que mostram como o desenvolvimento do conhecimento no plano individual está sujeito a indefinições e obstáculos similares aos da construção do conhecimento social da ciência, aspecto já destacado nos anos 1980 por Gilbert e Zylbersztajn (1985).
Além disso, também não é possível ignorar que a obra ficcional segue suas próprias leis: aquilo que um cientista consideraria um erro pode constituir uma estratégia narrativa fundamental para que a história atinja o efeito pretendido pelo autor."
quarta-feira, 9 de março de 2011
Questões de Escala

Micromachines de Scott Brain. Segue o texto que roubei do Super Punch:
"MICROMACHINA examines what makes the insect world tick, and considers our attempts to control nature and the consequences. Humanity’s blatant disregard for nature, where profit comes before life, will ultimately be our undoing. Pesticides, herbicides, genetic modification and massive urban expansion push the fine balance of life toward disaster. There has to be a point, when mother nature will say ‘too far’, and rid the earth of its biggest pest... us.
Once the stuff of science fiction, today flying and crawling insects are used by the military, fitted with audio and video devices. This exhibition experiments using real taxidermy beetles as mechanised shells, to show how we mistreat our fellow inhabitants, forcing them to do our will."
(Via SuperPunch!)
b)Somerset Space Walk, Inglaterra
Esta trilha em Somerset procura dar a ideia da vastidão do Sistema Solar.
Por isto eles proporcionalizaram as distâncias entre os planetas e um sol na escala de 1:530,000,000 (um milímetro = 530 mil quilômetros). O Sol é uma esfera de 2,5 m de largura. Os planetas interiores (Mercúrio a Marte) ficam a 67 metros do Sol, mas Plutão está a 11,5km. A estrela mais próxima, Proxima Centauri, não pôde ser representada: é impraticável nesta escala. Deveria ser uma esfera de 37,5 cm de diâmetro e deveria ficar afastada do Sol "meros" 76 mil quilômetros, cerca de duas vezes e meia a circunferência da terra.
c)Como seriam vistos no céu outros objetos celestes se eles estivessem a mesma distância que a lua?
Scale from Brad Goodspeed on Vimeo.
Em outro vídeo, pode-se ter uma ideia melhor da distância real entre a Terra e a Lua.(Ambos os vídeos via Neatorama)
d) O tamanho do universo, do mínimo ao máximo observável neste LINK
(Valeu Nelson)
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
A Máquina Diferencial de Babbage
Em 1991, o Science Museum em Londres construiu a máquina diferencial de Babbage n° 2 para uma exposição sobre a história da computação. Outras informações sobre Charles Babbage AQUI
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Inverted World

"Inverted World" é um livro escrito por Cristopher Priest, o sujeito que escreveu "The Prestige": o romance steampunk que originou o filme "O Grande Truque" (de outro Cristopher, o Nolan). Até onde sei (deu preguiça de googlear), ele nunca foi publicado no Brasil, mas já encontrei "O Prestígio" numa edição portuguesa da editora Saída de Emergência.
Aqui, em um trecho da postagem sobre o livro no ótimo "Rascunho", Cristina Alves descreve "Inverted World":
"Publicado originalmente em 1974, Inverted World foi um dos trabalhos do autor nomeados para um prémio Hugo, que integrou recentemente a colecção SF Masterworks da Gollancz, com um novo design.
Em Inverted World uma cidade encontra-se em constante movimento, e todos os esforços da população são dirigidos no sentido de manter a cidade em movimento, e a idade das pessoas é medida, não em anos, meses ou dias mas sim em milhas. A razão para esta necessidade apenas é conhecida de alguns, os que pertencem aos diferentes grupos de trabalhadores.
Com a idade de 650 milhas, Helward atingiu a idade adulta, deixando para trás a creche onde vivem todos os menores, e entrando no mundo dos adultos através de uma cerimónia, onde deverá escolher o grupo de trabalhadores que pretende integrar. Sem saber as funções a que cada grupo se dedica, Helward escolheu o do pai, uma figura distante e envelhecida. No mesmo dia da cerimónia, será anunciado o noivado, um casamento arranjado.
Após a escolha, Helward deverá servir em cada um dos grupos por algumas milhas, e é assim que sai da cidade pela primeira vez, descobrindo que o mundo exterior é bastante diferente do que lhe tinham ensinado na escola: a cidade move-se em carris, e o sol, ao invés de circular tem a forma de uma hipérbole. Para a construção de carris são contratados trabalhadores das povoações por onde passam, em troca de comida ou medicamentos. Para além destes homens, também são contratadas mulheres, a fim de aumentar a população da cidade.
Com a gravidez da esposa, Helward tenta passar a maior parte dos dias na cidade, mas uma missão prioritária surge, e Helward vê-se a acompanhar três indígenas à respectiva aldeia. Estranhamente, com o afastamento da cidade, as jovens começam a ter uma aparência disforme, diminuindo em altura e aumentando em volume. Em simultâneo, exerce-se sobre Helward uma estranha força gravítica, tanto mais forte, quanto mais se afasta da cidade. Ao retornar, Helward descobre que, enquanto para ele a viagem demorou apenas algumas milhas, na cidade decorreram dezenas de milhas."
* * *Um acréscimo meu: esta história me remeteu aos estranhos e belos mundos descritos em "Sonhos de Einstein" (1993), de Alan Lightman (Aqui no Brasil, publicado num livrinho pequenininho da Cia das Letras). Aqui, um artigo da Superinteressante a respeito.
(Fonte imagem: o humorístico 9GAG)
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Mandelbrot no vale dos Cavalos Marinhos
Intuições Fractais: Matéria (de João Moreira Salles) sobre Mandelbrot publicada na revista Piauí deste mês. Disponível (por enquanto) AQUI.
Trecho:
"Benoît Mandelbrot morreu no dia 14 de outubro passado.
Fosse ele um homem mais fácil de classificar, a frase seria outra: “O matemático Benoît Mandelbrot morreu no dia 14 de outubro passado.” Mas aí teríamos de combinar com os matemáticos, muitos dos quais achavam que Mandelbrot “podia ser muitas coisas, menos um deles”.
Muitas coisas, de fato, ele foi. O texto que o apresentou como conferencista de um seminário dizia: “Lecionou economia em Harvard, engenharia em Yale, fisiologia na Faculdade Albert Einstein de Medicina...” Aventurou-se na linguística e estudou a oscilação dos preços do trigo. Escreveu sobre a distribuição espacial entre cidades grandes e pequenas. Decifrou o mistério do ruído aparentemente aleatório das ligações telefônicas, provando que eram inevitáveis e, ao contrário do que pensavam os engenheiros, regulares. Identificou padrões entre terremotos e frequências cardíacas. Terminou a vida como catedrático de matemática em Yale, aos 85 anos, sem jamais ter provado um teorema relevante.
(...)
Mandelbrot nasceu em Varsóvia, em 1924. O pai era comerciante de roupas, e a mãe, dentista. Em 1936, a família fugiu para Paris, onde o jovem Benoît conviveu com um tio matemático. Com a aproximação dos nazistas, se mudaram para o interior do país. O dinheiro era pouco. Mandelbrot fazia pequenos serviços – aprendiz de artesão ferramenteiro foi um deles – e, por medo de ser denunciado, frequentou pouco a escola naqueles anos. Terminada a guerra, entrou na Politécnica driblando as falhas de formação com o vigor da intuição geométrica. Dado um problema qualquer, imaginava uma forma correlata e jogava com ela na cabeça. Mexia, esticava, dobrava, até que a solução se apresentasse.
Mandelbrot não seria muita coisa sem as formas. A geometria clássica ensina, desde cedo, a domesticar as coisas que nos cercam. Percebemos a montanha como um cone e a lua como esfera. São formas que abstraem o mundo, que escapam dele em direção ao plano ideal, platônico. Mandelbrot via diferente. Diante de uma rocha, perguntava: Mas e as reentrâncias, as lascas? “As nuvens não são esferas”, observou. O mundo não é puro, macio e liso, mas áspero, irregular e descontínuo. As formas clássicas, mais que pobres, eram impotentes para explicar as impurezas.
Era preciso criar uma geometria que soubesse descrever as nuvens e as folhas da samambaia. Tendo de começar por algum lugar, Mandelbrot olhou para o chão. Mais precisamente, para o limite entre a terra e o mar. Em 1967, publicou um artigo, que se tornaria clássico, cujo título perguntava: “Qual o tamanho da costa da Grã-Bretanha?” Lia-se logo no segundo parágrafo: “Uma costa selvagem é extremamente sinuosa, e, por conseguinte, seu comprimento final se mostrará de tal grandeza, que não haverá inconveniente prático em considerá-la infinita.”
“Ora bolas”, resmungaria um inglês mal-humorado. Caminhar era um passatempo nacional por aquelas bandas, e não poucos nobres e plebeus haviam dado a volta na ilha. Como não eram eternos e concluíram a excursão, a costa britânica podia ser tudo – selvagem, sinuosa, bela –, mas infinita, não, definitivamente não.
Mandelbrot propôs que se imaginasse uma cena: um homem caminha pelo litoral, sempre o mais perto possível do mar, e a cada passo deixa uma pegada. Quando reencontrar o ponto de origem, a linha que une todas as suas pegadas representará o comprimento da costa. Substitua-se agora o homem por um lagarto. Incapaz de, num só passo, cobrir com suas patas a mesma distância de um passo humano, o bicho terá de levar em conta acidentes que o homem ignorou. Reentrâncias não serão saltadas, mas percorridas. A linha descrita pelo lagarto será mais irregular e mais longa do que a do homem. Mais extensa ainda será a linha da formiga, que perceberá um seixo como relevo, como caminho a ser vencido.
A costa da Grã-Bretanha não tem um comprimento intrínseco, disse Mandelbrot. A medida do homem é antropocêntrica, uma entre tantas outras. O comprimento do litoral dependerá do agrimensor, da abertura do compasso – as pernas do homem, do lagarto, da formiga. Será menor a estimativa para o pássaro do que para o cão. Quanto maior o número de obstáculos percebidos, maior a extensão da costa, que, no limite, tenderá ao infinito.
“Qual tamanho tem?” se transformaria, então, em outra pergunta: “Visto de onde?” Visto do espaço, um Fusca é um ponto e tem dimensão zero. Do céu, pode ganhar extensão e ter duas dimensões. Do chão é tridimensional. De mais perto, do ponto de vista da formiga que caminha sobre a superfície lisa do para-lama, perde a terceira dimensão, volta a ser um plano. A escala é determinante.
Mandelbrot observou que formas irregulares – o litoral, por exemplo – tinham uma característica singular: sua complexidade não se alterava com a escala. O homem percebia certos recortes, o réptil percebia outros mais e outros ainda o inseto. Mas não era só isso: independentemente da escala, a forma percebida se mantinha substancialmente a mesma, como se cada segmento repetisse o todo.
Essa característica –- a autossemelhança -– é o centro da geometria criada por Mandelbrot. O mínimo se parece com o imenso. Uma pequena nuvem é semelhante a uma nuvem grande e ambas obedecem a um princípio organizador único."
(Vídeo via Problemas/Teoremas)
terça-feira, 19 de outubro de 2010
O pato de uma perna só... Nada em círculos?

"Perguntas como essa, a primeira vista, podem parecer estúpidas… sem sentido e até mesmo imperguntáveis. Mas, o que muita gente não sabe, é que perguntas como essa que fazem a ciência caminhar (às vezes mancando e às vezes rastejando sobre o próprio vômito). O fato é que… a ciência nunca para e essas perguntas nos aproximam cada vez mais da verdade universal.
Obviamente eu não sou o primeiro a levantar essa questão, foi Edward Fredchish-ish Baker, grande Físico e Economista, que em 1859 começou a estudar esse problema em sua banheira. Um fato curioso é que ele era um grande adorador de ovos e foi o criador da “dúzia de baker” que é uma dúzia de 13, mas isso não vem ao caso. Voltando… Baker era conhecido por sua determinação e teimosia… caraterísticas que ele soube usar muito bem na ciência.
Para uma melhor compreensão de como ele trabalhou esse problema, é interessante saber como os Físicos agem frente ao desconhecido. Podem abordar os problemas de diversas maneiras… uma delas é se utilizar do método das aproximações sucessivas (uma outra provável e bem comum é ignorar o problema e voltar pra casa), caso usado por Baker. Infelizmente, tudo o que temos produzido até hoje são aproximações da realidade, nenhuma formula é exata. Elas são modelos que tentam considerar apenas alguns parâmetros mais significativos de um determinado fenômeno. Você pode não achar, mas isso funciona MUITO bem.. ou as vezes.. não tão bem, mas o importante é que funciona."
Leia o restante no Efeito Azaron
Imagem Via "Humano, demasiado humano" e "Coisas do Arco da Velha"
terça-feira, 28 de setembro de 2010
A cabeça envelhece mais que os pés

(Via Yahoo Geek)
"Por Nátaly Dauer
O Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia do Estados Unidos ( NIST ) conseguiu demonstrar que a teoria mais famosa de Albert Einsten é mensurável mesmo a pequenas alturas, e que o tempo passa mais rápido para corpos a alguma distância do chão do que para corpos encostados no solo.
A curtas palavras, a Teoria da Relatividade afirma que o tempo passa mais depressa em maiores elevações em decorrência da diminuição da força gravitacional. É um efeito muito pequeno, da ordem de bilhonésimos de segundo, mas existe, explica o site TG Daily .
A grande sacada dos cientistas do NIST foi conseguir medir esta diferença. Eles utilizaram dois relógios atômicos que utilizam vibrações de um único íon de alumínio entre dois níveis de energia para calcular o tempo.
Os cientistas mediram a diferença de tempo decorrido entre dois relógios atômicos de alumínio separados por cerca de 33 cm (um pé) de altura. O artigo foi publicado ontem na revista Science, mas a diferença de tempo é irrelevante para a escala humana, cerca de 90 partes por bilhão de segundo em um período de 79 anos, conta o site Science Daily . Em termos práticos, isso quer dizer que a cabeça de uma pessoa, a quase dois metros do chão, envelhece mais depressa que seus pés.
Além disso, a Relatividade de Einstein ainda foi comprovada em outros aspectos, como na passagem mais lenta do tempo a maiores velocidades. O experimento mediu o chamado Paradoxo dos Gêmeos também por meio dos relógios atômicos. O paradoxo afirma que se dois gêmeos estiverem viajando em foguetes, o que estiver voando a uma velocidade maior voltará mais novo.
A equipe acredita que os experimentos podem um dia ser úteis para a geodésia, ciência que estuda as variações do campo gravitacional terrestre, com aplicações em geofísica, hidrologia e testes de física experimental no espaço."
AQUI um artigo do "Uncertain Principles" sobre o mesmo assunto.
(imagem: peguei pelo google num site russo esquisitíssimo. Estou sem tempo de achar algo melhor)
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
A Grande Farsa do Forno de Micro-ondas, por Quase-Físico

(Microondas ficou Micro-ondas: é a tal nova ortografia)
" Novamente, me sinto na obrigação de desmistificar certos conceitos e ideias por ai difundidas, que não tem nenhum compromisso com a realidade e principalmente com a Física (É, as vezes a realidade não se ajusta muito bem a Física, mas estamos trabalhando nisso. Quem sabe num futuro próximo consertamos a realidade de vez). Pois bem, o forno de microondas é um dos dispositivos modernos imersos em vários desses mitos! E meu objetivo aqui… como já perceberam, é de esclarecer toda e qualquer dúvida em relação ao funcionamento dessa maravilha moderna. Vamos lá!
Supostamente inventado por acidente, na década de 40, quando Percy Spencer passava por uma ala de acesso restrito na empresa que trabalhava – lugar onde cães eram irradiados com todo tipo de porcaria a fim de torná-los anti-alérgicos por indução de mutações aleatórias – onde percebeu que as barras de chocolate que trazia consigo[1], derreteram! Mas isso é apenas o começo da farsa!
Supostamente, o microondas funciona da seguinte forma: Uma peça chamada “magnetron”[2], composta por um “ânodo” e um “cátodo” formando “cavidades ressonantes” envolta por “imãs” é exposta a um “campo elétrico” que faz com que “elétrons” liberados pelo “cátodo” entrem nessa “cavidade ressonante” produzindo “ondas eletromagnéticas” devido a “vibração” desses “elétrons” – Ah, sim! Tomei a liberdade de colocar entre aspas todos os conceitos absurdos e que não tem a menor ligação com a realidade física – geram “ondas eletromagnéticas” que atuam sobre “moléculas de água”, açúcares e gordura, fazendo-as girar, na tentativa de se alinhar ao “campo elétrico” das “microondas” geradas por esse processo, e assim os alimentos ficam aquecidos.
E é assim! Colocam essa coisa numa caixa e vendem! Simples assim! Estão te enganandooooo!! Enganandoooo!!! Claro, se trata de uma mentira muito bem elaborada, convenhamos.
Mas, ok… como eles realmente funcionam?
Vamos pensar um pouco. Vamos imaginar que você está na sua casa e que sua/seu namorada(o) vem jantar. Você, um grande puto mentiroso, disse a ela(e) que faria uma lasanha com todo amor e carinho, mas… vai é fazer uma lasanha de microondas! Você coloca a lasanha nesse suposto “forno de microondas” e depois de mexer num painel complexo, cheio de luzes puramente alegóricas, liga a máquina. Imediatamente uma luz, em seu interior, se liga… iluminando sua deliciosa lasanha e mais que imediatamente depois disso, sua lasanha começa a girar!! É! Girar! Como se não bastasse a luz, que visa apenas… expor as formas e estruturas suculentas de sua lasanha, ela também gira… Gira vagarosamente, de forma quase que sensual para seu paladar. E enquanto você observa essa cena e/ou vai tentar ocupar sua mente… que agora só pensa em lasanha… lasanha… lasanha…. Ela vai esquentando e depois de alguns minutos está pronta para servir.
Notaram alguma coisa? Bem, acredito que os leitores mais inteirados aos assuntos de Física Moderna já sacaram o que realmente ocorre! (Leitores esses, acostumados às grandes produções destinadas a difusão de conhecimentos Físicos-Quantumesotéricos como “O Segredo” e “Quem somos nós?”)
O que acontece de verdade é o seguinte: Nós, criaturas cheias de luz, vida e amor, ainda não conseguimos nos libertar de certos desejos primitivos, por diversos motivos que não consigo bolar palavras bonitas para explicar, mas esses desejos primitivos ficam acumulados em nossa Glândula Pineal, que ao ser estimulada por imagens e sensações quânticas inferiores e mundanas, libera toda sua energia telúrica e vibracional que se concentra no objeto de desejo, que esquenta, ou seja, somos nós que aquecemos os alimentos.
Há! Agora faz sentido! Bem mais próximo da realidade, não?
Acreditem, muuuita gente confia naquela primeira explicação, cheia de conceitos misteriosos e obscuros que não fazem o menor sentido. Então, fica aqui minha dica/apelo… não se deixem levar pela ignorância pregada pelas midias. Sempre fiquem atendos às baboseiras pseudo-científicas de “elétrons”, “cavidades ressonantes” e etc que circulam por ai! Seja uma pessoa questionadora! Pesquise, pergunte e sempre busque a verdade.
=/
PS: Se você é um cético, pode fazer um experimento simples em casa, que comprova de forma inquestionável esse fato. Pegue uma lasanha, coloque no forno de microondas, ligue e o observe por alguns instantes e logo em seguida se afaste a aproximadamente 10km de distância do forno. Isso faz com que a energia dissipada por sua Glândula Pineal não consiga atingir o alimento, quando você voltar dessa caminhada de 10km, com certeza o alimento estará frio! Comprovando a teoria.
Caso você encontre no lugar de seu forno de microondas algo como isso:

Procure imediatamente um especialista, pois tem muita energia ruim a sua volta… mal-olhado stuff.
Notas do Autor:
[1] Eram 3 barras de chocolate ao leite, 1 crocante, 2 muffins e 1 um ovo de páscoa próximo de expirar o prazo de validade.
[2] Não é um decepticon.
"
O Efeito Azáron é um blog de humor científico mantido por um cara que se chama "Quase-Físico". Esta postagem é de 06 de outubro de 2009.
A imagem achei em Damn.I.Am e leva a uma notícia bizarra sobre um robô programado para amar. Clique nela para chegar lá.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
O Efeito Kulechov

"Nossa mente tem uma tendência para fabricar causalidades onde existe apenas sucessão. A montagem cinematográfica tem um exemplo clássico, que se chama “efeito Kulechov”, nome do cineasta que o criou. Kulechov foi um dos primeiros a compreender que a sucessão de imagens na tela leva a mente do espectador a praticar uma associação de idéias, “fundindo” essas imagens numa idéia mais complexa que não estava contida em nenhuma delas isoladamente. Assim como nossa retina funde várias imagens estáticas sucessivas, num movimento virtual que só existe em nosso cérebro, nossa imaginação cria laços entre as imagens pelo simples fato de vê-las juntas.
A experiência de Kulechov foi basicamente de pegar a mesmíssima imagem de um ator, e montá-la com imagens, respectivamente, de um prato de comida, uma pessoa morta e uma jovem deitada na cama. Os espectadores viram no rosto do ator expressões diferentes: fome, tristeza e ternura – mas a expressão era a mesma, pois era a mesma imagem."
O Efeito Kulechov por Braulio Tavares, em Mundo Fantasmo
(imagem Guto Lacaz)
terça-feira, 27 de julho de 2010
Como NÃO fazer ficção científica:

Introdução
Luke Skywalker lidera uma esquadrilha de caças X-wing em um ataque à Estrela da Morte do Império. Os caças espaciais ziguezagueiam ao longo da gigantesca nave, sob fogo cruzado de armas laser. Luke faz acrobacias mirabolantes, dispara suas armas e lança um míssil no tubo de ventilação - BUM! Adeus Estrela da Morte. Cenas como essa, de "Star Wars: Episódio IV", são típicas de filmes de ficção científica. Os efeitos e a movimentação toda criam uma grande experiência cinematográfica, mas há base científica nisso tudo? As espaçonaves poderiam realmente voar daquele jeito? Os disparos de laser seriam visíveis? A explosão ensurdecedora produziria mesmo som? Deveríamos nos importar com esses detalhes?
Responderemos primeiro a última pergunta: "É claro que sim!" A ciência é essencial para qualquer trabalho de ficção científica; a ciência a separa da fantasia e de outros tipos de ficção. Além do mais, os fãs de ficção científica são bastante exigentes. Às vezes, pequenos erros científicos não desmerecem a história e podem passar despercebidos, exceto pelo observador perspicaz. Em outros casos, os erros científicos são tão absurdos que a história se torna totalmente inverossímil - e o filme vai por água abaixo.
Neste artigo, vamos explorar alguns grandes erros e concepções erradas dos filmes e seriados de TV. Algumas observações antes de começarmos:
* nossa lista é restrita e escolhemos vários tópicos, mas há muito mais.
* você pode discordar da nossa escolha. Discutir ficção científica é sempre uma boa coisa.
* adoramos ficção científica, seriados, romances e contos. Nosso objetivo é informar, não "implicar" com uma obra em particular.
* sabemos que a meta principal dos produtores de cinema é o entretenimento e não necessariamente a educação. Enfatizar a ciência pode muitas vezes fazer com que a cena não funcione.
* estamos cientes de que os filmes de ficção estão limitados por orçamentos, recursos técnicos e questões essenciais para o entretenimento.
Tendo isso em mente, vamos examinar como a ficção científica não funciona.
As leis da ficção científica
No seu livro "Viagem Espacial", os autores de ficção científica Ben Bova e Anthony R. Lewis declaram as duas leis da ficção científica:
1. Histórias de ficção científica são aquelas em que alguns aspectos da ciência futura ou tecnologia são tão fundamentais para a história que se forem retiradas a história desmorona.
2. Escritores de ficção científica estão livres para extrapolar o conhecimento atual ou inventar qualquer coisa que imaginarem, desde que ninguém prove que o que "imaginaram" está errado.
* * *
A primeira lei separa a ficção científica da fantasia, space opera, ou apenas ficção pura. Por exemplo, em "Contato", um rádio astrônomo recebe uma mensagem de outra civilização na galáxia. A ciência de rádio astronomia e as viagens interestelares são cruciais para a história, e o falecido autor/astrônomo Carl Sagan fez um grande esforço para torná-la correta em relação à ciência.
A segunda lei de Bova e Lewis dá aos escritores bastante liberdade. Vamos examinar como esta lei funciona com um problema comum em filmes de ficção científica. As distâncias entre estrelas na galáxia são vastas (anos-luz e parsecs). Então, para viajar pelas estrelas em tempo razoável os personagens devem se mover mais rápido que a luz. Mas a teoria de relatividade especial coloca a velocidade da luz (300 mil km/s) como o limite da velocidade cósmica. Nada que tenha massa pode viajar tão rápido como a luz porque seria necessário uma infinita quantidade de energia para acelerar até a velocidade da luz, e a massa iria aumentar infinitamente. Autores de ficção científica inventaram maneiras de contornar este problema, como a "dobra espacial", que distorce o espaço em "Star Trek". Estes métodos permitem aos personagens atravessar grandes distâncias sem sofrer as penalidades da relatividade (aumento da massa, distâncias reduzidas, dilatação do tempo). Na verdade, essas invenções estimularam físicos teóricos a explorá-las. Até agora, nenhuma dessas idéias pôde ser refutadas, e elas se tornaram elementos importantes da ficção científica.
(Um artigo de Craig Freudenrich traduzido para o português no site HowStuffWorks Brasil... Para ler tudo, clique AQUI. Imagem via Blog de Brinquedo)
sábado, 3 de julho de 2010
Planetas invisíveis: Diana
(Via Little People)
* * *
"Não são todos os animais que precisam ter medo da gravidade. Na verdade a imensa maioria deles - em número e diversidade - não precisa. O estrago que sofremos ao aterrisar depende de duas coisas, a força que resulta da massa do animal e da aceleração, no caso a gravidade - F=MxA. A outra é a superfície onde essa força é distribuída. Aqui é que mora a diferença.
Quanto maior o animal, mais pesado ele é, mas a superfície que ele ocupa não aumenta proporcionalmente. O volume determina o peso do animal, portanto a força que ele exerce quando cai, aumenta em três dimensões, ao cubo. Já a superfície do animal aumenta em duas, portanto ao quadrado. Quanto maior a relação superfície/volume, mais resistência do ar o animal encontra e menor a velocidade final dele durante a queda. Basta pensar numa folha de alumínio caindo aberta ou amassada.
Por isso formigas, besouros, aranhas e inclusive camundongos não precisam se preocupar com a altura. Cair de 20cm ou de 2 mil metros para eles não importa, uma vez que a velocidade final em queda é baixa e eles distribuem o impacto por uma área relativamente maior. Enquanto isso, qualquer quedinha para o elefante é perigosa."
(trecho de "As Nove Vidas dos Gatos", VIA RAINHA VERMELHA)
Brontops Baruq. Portal 2001.
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domingo, 28 de março de 2010
Ora, direis, ouvir ETs!
Astrônoma que inspirou personagem de Jodie Foster em filme diz que amostra de sinais ainda é pequena
DA REPORTAGEM LOCAL
Trabalhando no projeto Seti desde 1978, a astrônoma Jill Tarter, 66, é hoje a cientista mais influente na área. Foi a única a conduzir um projeto da Nasa, em 1992 e 1993, para busca de sinais extraterrestres.A fama, porém, só chegou em 1997, quando o romance "Contato", de Carl Sagan, virou filme -a protagonista da história, Eleanor Arroway, interpretada por Jodie Foster, era inspirada na americana. Na obra, a cientista faz uma viagem mais rápida que a luz, conversa com um ET -mas fica sem dados concretos da jornada.Em entrevista à Folha, Tarter (hoje diretora do Centro de Pesquisas Seti, na Califórnia) explica por que considera a busca de extraterrestres uma jornada que mal começou. (RG)
FOLHA - O programa Seti completa 50 anos agora sem ter conseguido detectar nenhum sinal de rádio ou luz enviado por extraterrestres. Vocês estão hoje mais otimistas ou mais pessimistas do que estavam na época das primeiras buscas?
JILL TARTER - Todo o trabalho inteligente feito pelo Seti buscando sinais ópticos ou de rádio é como se fosse examinar um copo de água tirada do mar para saber se os oceanos da Terra têm peixes. Se você não encontrar nenhum, provavelmente chegará à conclusão de que sua amostragem é muito pequena em vez de concluir que não há peixes nos oceanos.
Folha de S. Paulo - Caderno Mais! - 28 de março de 2010

