Projeto Portal foi uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa durante os anos de 2008 e 2010. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — foi distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Seis números (de papel e tinta, não online). O título de cada revista homenageou uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.


Idealização: Nelson de Oliveira | Projeto gráfico e diagramação: Teo Adorno
Revisão: Mirtes Leal e Ivan Hegenberg | Impressão: LGE Editora

Mostrando postagens com marcador portal Stalker. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador portal Stalker. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Denize Muller e suas impressões do Portal Stalker




Resenha Stalker.

Há poucos dias, o lançamento do terceiro portal aconteceu. Um encontro no Espaço Terracota, com direito a presença de Nelson de Oliveira (organizador e idealizador) e alguns dos autores: Tiago Araújo, Brontops, Roberto de Sousa Causo, Rodrigo Novaes de Almeida e Ivan Hegenberg, além do público. Stalker compõe um projeto de seis revistas, lançadas semestralmente, que se finalizará em uma antologia, contendo os melhores textos de cada um dos seis portais. Os dois primeiros Solaris e Neuromancer, já rodam por aí, nas mãos de gente que curte FC, ou que mesmo sem ter afinidade com o gênero conseguiu um exemplar. Isto mesmo, para ler e ter um é necessário conhecer um autor, fazer parte do meio literário, ou ainda, ter curiosidade e buscar na internet, assuntos relacionados, resenhas, comunidades de FC falando dos portais. Sim, porque você não vai encontrá-los em livraria, e-book, banca de jornal; não estão à venda. Tive a oportunidade de ler Neuromancer e agora Stalker, e de modo geral, prefiro o terceiro. Os textos são mais vivos, mais fantasiosos, mais cativantes ou porque, hoje, esteja contaminada por um vírus de alguma galáxia literária que desconhecia. Participam deste terceiro portal onze autores com dezoito textos. Não comentarei todos, apenas os que na minha parca concepção sobre FC foram mais tocante:

Gigantes
de Mayrant Gallo uma nova forma de escrita, algo desprendendo originalidade, e o final envolvente, diria um micro conto em “Segredo”.
Ontem ferido de Maria Helena Bandeira é envolvente, com sabor de quero mais fantasia.
Os quereres de Brontops trazem o que há de mais humano na FC:
" {Esposa} Nossos gostos são muito simples... Não pensamos em filhos halterofilistas ou filhas poetisas..."
Tiago Araújo mostra seus Artigos, diria relatórios, de um futuro que se nos apresenta de forma quase que real: sagrado pelas referencias e profano pelas interferências.

O próximo é Fundação, mais uma homenagem às obras-primas da FC. Reitero não corra para comprar o seu. Mas, posso dizer, ou plagiar, Luiz Bras:
“Eu vou até lá” “Tem certeza? Você conhece os riscos...”
Sim e estou adorando me arriscar neste mundo novo.


(Denize Muller é poeta e escritora, além de otras cositas +. Imagem: Juan Gimenez)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Kio, editor do Farrazine, comenta os Portais


Enviei para o Kio, editor e diagramador do fanzine on-line Farrazine (Acabou de sair o número 17: visite o BLOG e conheça a revista), o Portal Fundação e o Portal Stalker. Por email, ele me passou suas impressões - como leitor - que publico a seguir:

* * * PORTAL STALKER

"Salve, Brontops.

Bom, não tenho cacoete de crítico literário e acho até que, em alguns casos, minha compreensão ficou aquém do que foi proposto em alguns textos... mas, 'bora comentar.

Primeiramente, o visual do livro está ótimo. Diagramação limpa, boa impressão, revisão muito bem feita (tive a impressão de ter visto apenas um erro, não me lembro onde) e não misturar os contos dos autores foi uma boa decisão.

"Gigantes" - Lembrei-me na hora do conto "O Homúnculo" do Vino hehe. Tem suas semelhanças na linguagem e na proposta. Aliás, recomendo que você leia (se não o fez) o Histórias de Terrir.
Voltando... a ideia de "não terminar" o conto foi excelente. Gosto quando deixa margem a imaginação.

"O Novo Protótipo" - Imaginei uma mistura de "Blade Runner" com "Akira" para me ambientar nesse conto. Cara, que loucura foi pensar em São Paulo desse jeito. Gostaria de vê-la em HQ.

"Ontem Ferido" e "Alguém que Fui" - Não me adaptei muito bem ao estilo da Maria Helena. Pareceu-me muito carregado de poesia, entende? Etéreo, talvez? Confesso que não consegui ver o que está ali, mas não está escrito. Faltaram-me elementos para completar os contos na cabeça, a ponto de fazer sentido.

"Sagrado" - Angustiante (rs) mas no bom sentido. A forma que foi construída o que pode vir a ser idolatria radical do futuro me deixou tenso. Jeito inteligente de misturar as indústrias do marketing e da religião. Fiquei grudado no texto.

"Kripton" - A narração desse último dia da Terra foi um dos poucos que me passou a inevitabilidade do fim. Já vimos isso em livros, filmes, desenhos, HQs e, acredite, entrei no clima da desesperança que esse fim traz. Conseguiu esse efeito.

"Os Quereres" - Faz pensar se teremos uma banalização tão grande das coisas que nos são caras. E daí, como contraponto, vem a imagem da jovem viúva com as aflições e os sentimentos com os quais estamos mais ambientados.

"Buraco no Céu" - Reviravolta sensacional. Dava a impressão que iria cair no lugar-comum e finaliza com uma sacada brilhante. Certamente, uma forma de apocalipse inesperada (rs).

"Wharia Avariada" e "Nonsensal" - Muito vagos, não me inspiraram a tentar entender melhor ou construir alguma coisa a mais.

"Holograma" - Enlouquecer pela solidão ou pela privação. Apesar de ser meio "batido", foi bem explorado.

"Tempo Virtual, Mate Real" - Bela sacada. Com essa onda da vida virtual, Second Life, avatares e afins a construção do conto foi muito inteligente.

"Artigos..." - Cara, o Tiago construiu uma visão de futuro muito interessante. Sugiro até que ele registre a patente de certos utensílios domésticos dos contos (rs). O "captador" de ódio foi demais. Gostei muito da leitura.

"Fênix: Missão Urano" - Típica aventura a la Star Trek. Nem precisa de muita explicação, o ambiente já é suficientemente envoltente. Gostaria de ver a continuação, a viagem da Fênix para Oort.

"Singularidade Nua" - Também me agradou, mesmo não sendo tão fã do gênero sci-fi. Aliás, o Luiz e o Rodrigo foram os que mais usaram da linguagem "simples" desse gênero, mais habitual digamos assim.

"Esquizóide" - Caramba, quantas citações e jogos de palavras tão bem colocadas no texto. Foi a leitura que mais me impressionou, pela proposta de trabalhar com o não-saber envolvendo tanto saber.

E é isso, meu caro. Agradeço novamente o envio do livro. Você me proporcionou uma leitura diferente que, no mínimo, estimulou muito o meu pensar.

Abração."

* * * PORTAL FUNDAÇÃO

Essa complicação de contos entitulada "Portal Fundação" difere um pouco da anterior ("Stalker") pela linguagem mais harmônica, entre si, dos autores.

Apesar do estilo distinto de cada um deles, a ficção não adquiriu um aspecto muito inacessível, abordando o tema com um quê de realidade plausível. Vemos apenas uma exceção, de uma autora que cito mais abaixo, onde a fantasia é mais presente, mas sem descaracterizar a plausibilidade.

Em "Veja seu Futuro", o desfecho da história nos remete aos finais costumeiros da série "Twilight Zone", onde chega a causar desespero, a sensação de inevitabilidade que se alcança.

"Cheiro de Predador" e "Estranho Progresso" propõe a continuidade da "Lei do mais Forte", lei esta que no decorrer dos anos se mantém em vigor e, pelo visto, será a que tem mais chance de prevalecer num futuro pós-apocalíptico.

A forma como o preconceito é tratado em "Cor da Tempestade" é digna de aplausos. Conto envolvente que, apesar de deixar transparecer seu desfecho um pouco cedo, tem os elementos básicos para gerar uma boa análise sobre a segregação racial.

Seguindo na leitura, "Nuvem de Cães-Cavalos" nos leva a paranóia angustiante do protagonista, agitado e confuso. Logo após, com "O desenvolvimento Insustentável do Ser" vemos, de maneira quase monótona, um avanço gradativo no tempo onde percebe-se que o quão valioso é o que se perde.

"Animmalia" lembra um folhetim detetivesco "noir", só que nesse caso estamos no futuro. Um "noir futurístico", se me permitem o paradoxo. Destaque especial ao casal de detetives.

Ler "Habeas Mentem", "Sob as Sete Luas..." e "O Guarda-Mor..." seguidamente, em um curto intervalo, é um exercício muito interessante. Parte-se da ação, para a ficção mais "asimoviana", concluindo numa ficção de pé descalço e bicho de pé. Uma experiência que está sendo possível através do excelente trabalho do "Projeto Portal".

Maria Helena Bandeira está estrategicamente colocada no livro, com seus 6 contos, para marcar um estilo. Seus contos, mais curtos que de seus colegas escritores, têm uma linguagem poética que não se deixa destoar do tema proposto. Ao contrário disso, traz uma atmosfera mais abstrata, portanto enaltecendo o fantástico.

"Deslocalidade" e "Eu?" novamente trazem o conflito, se lidos imediatamente um após o outro. Sorver a narração séria, fiel ao tema ficcional encontrada em "Deslocalidade" e logo mais à frente se deparar com o turbilhão narrativo de "Eu?" torna o conjunto muito mais interessante. Pode parecer estranho a avaliação, nesse caso, não ser conto-por-conto, já que são tão díspares, mas essa característica tornou tudo muito mais prazeroso de se assimilar.

Tivesse "O Preto" se passado em um morro a analogia estaria mais que explícita. Um provável futuro, podemos dizer.

O conto "Index" faz jus ao seu título. Vemos uma enxurrada de palavras interligadas que, como bem descreveu-se o autor - "escrevo possesso" - são atiradas na face do leitor que, indefeso, só pode absorvê-las continuamente e, para melhor degustação, tornar a lê-las em outra oportunidade, quem sabe com outros olhos.

E tem mais, "O Corpo Seco" não nos deixa descansar da enxurrada citada acima. Imagino esse conto na voz do vocalista do Rappa, o Falcão. Que me perdoe o autor se não concorda com a escolha, mas a voz rouca e emergencial desse sujeito me parece ser providencial.

E que venha o descanso com o que temos a seguir, um conto mais cerebral. Oras, depois de "Index" eu me permiti esse chiste para comentar "O Cérebro". Que me perdoem.

Parar o tempo deve estar no imaginário da maioria da população. Em "O Homem que Parava o Tempo" temos a oportunidade de ver uma pessoa comum com essa habilidade... no século V. No final, vemos que nós homens somos todos iguais.

"Sésamo, Bananas & Kung-Fu" e "Hipocampo" são relatos futurísticos da provável confusão que seríamos vítimas - e responsáveis - com o advento de novas tecnologias e possibilidades. É o contraponto entre velhos hábitos e novos vícios.

"História com desenho e diálogo" é um desses contos que se enxerga além das palavras. É certo que a forma como é escrito colabora com essa perspectiva, porém há de se enaltecer uma narrativa descritiva que não se destaca - nem a mais, nem a menos - do texto, completando-o contudo.

E aí está, meu caro. São minhas humildes impressões que, mesmo sem embasamento literário, saltaram dos meu dedos com honestidade."

Muito obrigado Kio!


(imagem via IO9; Para conhecer a revista eletrônica FARRAZINE, clique AQUI)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sinvaldo Júnior e o Portal Stalker n´O Bule




"Antes de tudo, é necessário apresentar o Projeto Portal: é uma série de livros de narrativas de ficção científica e literatura fantástica com periodicidade semestral. Ao final, serão no total seis números (impressos). Cada número homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit. A idealização do projeto é de Nelson de Oliveira. De acordo com o idealizador, "o projeto pretende ampliar o limite temático auto-imposto pela literatura, abrindo as possibilidades para que a arte da palavra se renove e saia da mesmice em que se encontra". O objeto desta resenha é o terceiro da série, o Portal Stalker. Em agosto, agora, está sendo lançado e divulgado o Portal 2001.

Antes de mergulhar nos contos (ou de ser experimentados por eles?) do Portal Stalker, eis uma interessante (e nada comum) apresentação de Nelson de Oliveira: Nas próximas páginas, boas mordidas e muitos beijos. Muitos mesmo. Dos outros. Pois a outridade é o que nos define. (...) Através deles (dos contos) você visitará outros mundos, outros metabolismos, outros sistemas de pensamento. Ou será por eles visitado. E é exatamente essa a impressão do leitor ao final da leitura: de que se transmigrou (termo usado pelo Nelson em sua apresentação), de que visitou mundos antes nunca visitados. E isso é bom."

Leia o restante AQUI.


Imagem Via Traches du Net AQUI

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Portal Stalker, pelo Homem Nerd






"Sinopse: Portal Stalker é o terceiro número do Projeto Portal – coordenado pelo escritor Nelson de Oliveira, em que um grupo de escritores é convidado a escrever um ou mais contos de ficção científica ou generos afins para comporem um “Portal”, que leva o nome de um livro famoso de Ficção Científica. Neste terceiro número o livro homenageando é Stalker, de Stanislaw Lem e dez autores escrevem 18 contos.

A revista Portal Stalker em suas páginas abarca diversos gêneros, contendo de uma aventura quase estereotipada de FC Hard, "Fênix: Missão Urano" de Rodrigo Novaes de Almeida, passando por um bom conto de Cyberpunk, "O Novo Protótipo", de Roberto de Sousa Causo, adquirindo contornos poéticos nos contos de Maria Helena Bandeira ou de puro nonsense nos contos de Marco Antonio Bueno e Tiago Araújo."


Continua AQUI

sábado, 26 de dezembro de 2009

Projeto Portal no Aprendiz de Escritor...

Fonte: Angus Mckie, The Planet that wasn´t (via Sci-Fi-O-Rama)



...Bruno Cobbi, do Aprendiz de Escritor pretende ler e resenhar todos os contos de todos os Portais em postagens. Ele começou com o Portal Stalker. Além disso, ele gravou e colocou na rede um vídeo do lançamento do Portal Stalker ocorrido em 21 de agosto último.

Os links disponíveis até agora estão abaixo:

Portal Stalker
Gigantes, do Mayrant Gallo
O Novo Protótipo, do Roberto Causo


* * * * *

Aliás, aproveitando: Mayrant Gallo ganhou um das categorias do III Concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação. Segue o LINK para ler a postagem em seu blogue. Parabéns Mayrant!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

RESENHA AO STALKER POR Daniel Serrano-do PQP

FONTE: www.postoqueposto.blogspot.com
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Sobre Portal Stalker


Portal Stalker é uma revista literária; dedica-se à ficção científica e é o terceiro número (são seis previstos) de projeto do escritor Nelson de Oliveira, que tem se mostrado excelente agregador de bons escritores. A Portal Neuromancer, hão alguns de lembrar, passou por aqui em resenha, há já quase um ano. Para o número novo, algumas considerações: bem mudado vem o time de escritores — Portal Stalker atua com elenco justo de onze. Dos que tinham disputado o outro torneio, é de se reconhecer que mantiveram a forma. Roberto de Sousa Causo, Marco Antônio de Araújo Bueno, Tiago Araújo e Luiz Bras não só mantêm firme a bola ao pé como arriscam novos dribles, sem que com isso saiam a equilibrar-se em altos saltos, coisa de contrário tão comum no futebol, irmão rico da literatura. É ainda certo que põe-se um time sempre novo, à busca de coisa nova que lhe dê brilho aos espetáculos. Entram aí fortes as estréias: Sérgio Tavares, Brontops e Ivan Hegenberg, presenças-mais-que-preciosas nesse penetrar ofensivo à língua. Desses, afinal os que mais gostaram a este confuso resenhista, fazem-se breves comentários.




Roberto de Sousa Causo
Ágil seu conto O novo protótipo — preciso nos cortes do texto. O início vai a levar o leitor, até que se anuncia, como a negar pirulito: “Gostava do bairro. Seria bom morar nele, mas ela estava ali para matar um homem”. E aí está-se dentro. A narrativa consegue envolver e curiosos são os experimentos de vocabulário, que têm no colocar-junto de duas palavras ordinárias o efeito grandioso: metrômaglev, lixôrganico, foramundo.


Sérgio Tavares
Sagrado é assustador e realíssimo. Grande empresa de marketing, de mercado, toda a organizar mega-evento religioso. Há no narrador um distanciamento como que obrigatório, mas também uma ânsia de envolvimento. Quer pôr-se longe e para isso indica “procurar bibliografia em MKULTRA, ARTICHOKE, BLUEBIRD, MKDELTA, MKNAOMI e outros”, além de cuidar da precisão, indicando numericamente velocidades médias e acelerações. Mas deixa-se levar, enchem-se seus olhos com o “espetáculo de chamas e choro” e chega a desabafar: “Por fim me perguntou se, para mim, filho da puta, havia algo realmente sagrado". Incorpora humor, e aí tem-me um ponto.


Brontops
Na vista ampla, o tema é batido: fim do mundo. Mas chega a ser triunfal a saída que lhe encontra em Kripton. Sem também deixar tombar o humor, sai-se muito bem com o conto {Os quereres}, verdadeira ode ao acaso em tempos (estes e os que provavelmente vêm) de controle de variáveis. Dá no que dá — o verdadeiro apocalipse é o que se vive, ou se viveu, o que aliás lhe tira o tom dramático, embora não tanto. Trata disso seu terceiro gol na revista, sob o longo título Buraco no céu ou 22 de dezembro de 2012.


Marco Antônio de Araújo Bueno
É o do esquema tático. Atenção para a composição muito pouco casual dos parágrafos, em números de linhas. No fantástico Holograma, 4/4/4/4/4/8/4/4/4/4/4; ajuda-nos a subir a montanha e depois tomba-nos de lá, carinhosamente. As frases são curtas, rápidas, tomam da poesia certo paralelismo, metrirritmando a prosa. Também assim são Tempo virtual, mate real e Nonsensal. Wharia avariada, cativante já no título, é tripartido: I, II, III. Atos-corte, fissuras no espaço-tempo, com costura precisa, enxuta.


Tiago Araújo
Quando anuncia “Os quatro ou cinco centímetros de espessura — dependendo da vontade do casal”, suspendendo a função da medida, Tiago Araújo me tira um riso do lábio. E segue assim ao levar-nos por seus três contos [Artigo 15.720 (Provisório), Artigo 16.831 (Translúcido) e Artigo 20.053 (Revelação)], sempre a jogar com o dúbio e esticar, suspender. Das boas lições, uma delas é um verdadeiro manual para a sobrevivência dos relacionamentos conjugais.


Luiz Bras
Volta e volta com suas perseguições. Tem-se a missão, sai-se a cumpri-la, queimam-se arquivos. Gostoso mesmo é o jeito por que nos leva a história, em lances de engano e enganação. Singularidade nua é um dos mais longos da revista, mas tanto se sustenta que flutua; atrito, mesmo, só tomado por boa coisa — atrito de faísca.


Ivan Hegenberg
O personagem de seu Esquizóide está confuso, mas confunde-nos ao notar-se personagem. Não se sabe “at home” ou “at Rome”, nem se Júlio César é Jesus Cristo. Nem importa; o conto dá margem a algumas das mais criativas brincadeiras de linguagem da revista: “Um ou vários vírus. Vèro. Vi, vi, vi, vi, vi, vrrrrrrrrrrrrrrr...” ou “Tróia dos portos dos fortes das troças trapaças...”. Mas confuso, em verdade, é o que não está o personagem. Ou não será isto sinal de lucidez: “Será isso o que se passa comigo? Não um experimento científico, mas um experimento artístico?”

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Crítica de Eric Novello, da Aguarrás


(Achei aqui esta imagem grotesca. Uma pesquisa na "confiável-quando-se-está-com-pressa" wikipedia indica que apesar do "autor" Kilgore Trout, este livro não foi escrito por Vonnegut e sim por Philip Jose Farmer)



A Aguarrás é uma revista bimestral online científico sobre artes. Colaborativa e totalmente livre e gratuita.

O conteúdo do Aguarrás é escrito exclusivamente por nossos colaboradores e não aceitamos matérias pagas, bem como não cobramos pela publicação de artigos.

Em sua vigésima primeira edição, o escritor e roteirista Eric Novello escreveu uma resenha sobre o Portal Stalker.

Trecho:

"Insisto nisso porque a ficção-científica é só uma roupa. É um jeans com camiseta como outro qualquer. Um autor pode vestir seu drama como bem entender. Alguns preferem vesti-lo com magia, outros com andróides perturbados. A literatura dita mainstream, que chamo de literatura do cotidiano para ver se um dia o termo cola, pode até fingir que é um corpo nu, mas também tem lá suas vestimentas e maquiagens. Ficam na porta ao lado, é verdade, mas com um armário cheio do mesmo jeito. Sai a nave espacial e entra o pó de barro, o sofrimento do imigrante. Sai a arma de prótons e entra a família de classe média cheia de podres. Sai o dragão tirânico e entra a favela, a periferia, o marginalizado, o cara que trabalha consertando os canos dos esgotos. E nisso, sinto muito, não há nenhuma nudez. Não existe literatura nua. Não importa a fantasia que se escolha, o que conta no final, veja só, é ter por baixo uma boa história."

Para ler a crítica inteira, clique AQUI

domingo, 16 de agosto de 2009

Tibor Moritz comenta (não resenha) contos da Stalker

gosto do que o Causo escreve. Dessa vez não foi muito diferente, embora tenha reclamações com relação a este conto. Algumas coisas ficaram sem explicação e muitos eventos pareciam ocorrer simplesmente porque tinham que ocorrer. Senti falta de emoção, não fui fisgado, não me provocou ansiedade pelo final.
Conto 3 – Ontem ferido (Maria Helena Bandeira)
Um conto belo, mas escrito para não ser entendido.
Conto 4 – Alguém que fui (Maria Helena Bandeira)
Idem anterior. Até pensei que tivesse alguma ligação, sei lá.
Conto 5, 6 e 7 – Kripton, Os quereres e Buraco no céu (Brontops)
Até agora os melhores contos dessa coletânea. Muito bem escritos e com miolo. Meus parabéns ao autor cuja alcunha me lembra o período jurássico ou remédio para os brônquios.
Conto 8 – Wharia avariada (Marco Antônio de Araújo Bueno)
Incompreensível.
Conto 9 – Nonsensal (Marco Antônio de Araújo Bueno)
Nonsensal é um título bastante adequado a um conto que nos brinda com absoluto nonsense. Me pergunto o que o autor tem na cabeça quando escreve coisas sem nenhuma compreensão possível (pelo menos para mim). Para que leitor ele os escreve? Para si mesmo? Na minha opinião, um escritor não é para si, é para os outros.
Conto 10 – Holograma (Marco Antônio de Araújo Bueno)
Esse conto dele é melhor, embora exagere nos ecos. Ufa…
Parece existir entre alguns autores o afã de produzir obras com “O”, usando para isso (no presente caso) a literatura de gênero (que não exige necessariamente um conteúdo linear, mas que seja ao menos inteligível).
O que acabam conseguindo é um tipo de literatura “loura burra”, que apresenta ótima aparência, mas nenhum conteúdo.
Recentemente tem havido uma salutar discussão iniciada por Nelson de Oliveira e alimentada por Roberto de Sousa Causo, onde se discute a distância entre a literatura mainstream e a de gênero, e como ambas podem interagir.
A literatura mainstream privilegia a forma, enquanto que a de gênero, o conteúdo. Querer escrever a de gênero desprezando o conteúdo vai acabar criando outro subgênero para se unir a tantos outros: a literatura bizarra, ou lobotomizada.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

as leis do ferro



“Meu amor, o mundo é enfadonho demais. Não há nada, nem telepatia, nem fantasmas, nem discos voadores, nada disso existe. O mundo é regido pelas leis do ferro-fundido, as leis do ferro-frio. É triste.

Infelizmente, estas leis são invioláveis, elas não sabem violar a si próprias.

Em resumo: não conte com discos voadores. Isto seria empolgante demais para ser verdadeiro.”

Diálogo extraído do filme Stalker(1979), de Andrei Tarkovsky

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Baseado de Assis

Escrevi esse conto para a Stalker, baseado no eixo narrativo de um outro, dos anos 60!Não dos anos sessenta do século passado, é claro;a concepção que norteia o Projeto Portal é plasmada na prospecção, no futuro.Refiro-me ao século retrasado!O título dele - "Segunda Vida" - alude a virtualidades como "Second Life", avatares, errepeges. Futuro. Nem Futuro do Pretérito; Futuro premonitório, no campo da narrativa, da fantasia ficcional. Esculpido a Machado. Machado de Assis.Avancei no tempo para alcançá-lo e cheguei a este, baseado em Assis, o brucho que se defuntava na ficção, e voltava pra contar. O que conto ficou assim:







“Tempo Virtual, Mate Real”




Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção disparou a tomar providências. Trataram-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos adicionais de etiqueta, protocolos de natureza diplomática. O Senhor que o aguardava não abriria mão de suas prerrogativas, das armas e brasões que o precediam. Mesmo sabendo da farsa daquele cerimonial.
Apresentou-se cordialmente, sentaram-se. Notou que o Senhor evitava o confronto visual e mantinha certa rigidez nos gestos; que não se apartava de seu caixilho 9.0, atrelado ao pulso, por um cordão metálico incrustado de minúsculos ornamentos verdes. – “Relíquias do auspicioso clã, Senhor? bonita peça!” , gracejou para quebrar a formalidade. Mas o Senhor respondeu que não, que se tratava de material explosivo.
Configurava-se uma situação de risco, agora sim, mas não tinha como apartar-se do ilustre visitante para os expedientes cabíveis; um “com sua licença, volto num instante” soaria como um “vou chamar a segurança”. Enxadristas vibrariam com a perspicácia resoluta daquele mate real já anunciado. A saída exigia compostura e raciocínio antecipatório.Uma varredura seletiva em seu repertório de alternativas afins.
Havia, para ganhar tempo, um recurso muito eficiente quando se tratava de representantes de aristocracias e portadores de mutações genéticas que potencializavam a estima pessoal e a vaidade. –“Esses caixilhos 9.0, Senhor, um grande privilégio prevalecer-se de dispositivos tais que permitam inibir nossos sensores, esses, também de última geração, que detectam roteadores de tempo real. O valor dessa máquina!”.
Afastando as mãos como se contornasse o caixilho, expressão mais relaxada no rosto, Senhor mordeu a isca, não sem antes desferir uma ofensa de natureza institucional: - “Seus sensores têm a vulnerabilidade típica das instâncias censoras, aguçam nosso ímpeto de desafiar, de descobrir as falhas do sistema...” A expressão não era de riso; era um esgar malicioso de quem já conta com os louros. Vitória por mérito...
Cintilava nos olhos de ambos um indelével desejo de astúcia, de reconhecimento meritório de astúcia de um – o Senhor -, que demandava aplausos da platéia entusiasta que julgava ter no outro, e deste outro que exalava um devir de sobrevivência e instigava: -“Em nossas idades-Terra, Senhor, meninos é que somos nessas circunstâncias, ávidos por imaginar proezas dessas engenhocas, ardemos de contentes!”.
Senhor, abrindo o painel do caixilho, exultava: -“E já que explodiremos juntos, mal me contenho em excitar sua imaginação: imagina o recurso que usei para enganar seus sensores”.-“ Não alcanço!”. –“Uma singela máscara de interface na área do relógio.”, e abriu o código fonte, inclinando o corpo para o exato quadrante coberto por uma das câmeras de vigilância. O outro ergueu os braços, solerte; -“Desenvolvedor!”
Ao erguer os braços, porém, a câmera registrou o dedo indicador direito apontando para o alto e o esquerdo para o painel do caixilho que escancarava o hackerismo, agora, detectado e desfeito com recuso tão singelo quanto o concebido pelo desenvolvedor – uma intervenção no relógio do sistema e subsistemas coadjuvantes tornava virtual toda a sequência do tempo transcorrido desde a chegada do Senhor...
Quando, já no final daquela troca de amenidades tecnológicas, algo nefasto apontava para o imponderável da missão do Senhor, este, lacrando seu caixilho, retesou-se e proferiu, solene: -“ Hora do fim, colega!”-“Ora, ora, temos tempo, Senhor, uma câmera flagrou e desabilitou a contagem. Para todos os efeitos, não tivemos este encontro porque o Senhor não entrou aqui. Prefere seu chá com leite? Seu avatar gosta?”


P R O J E T O P O R T A L B L O G F E E D