Projeto Portal foi uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa durante os anos de 2008 e 2010. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — foi distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Seis números (de papel e tinta, não online). O título de cada revista homenageou uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.


Idealização: Nelson de Oliveira | Projeto gráfico e diagramação: Teo Adorno
Revisão: Mirtes Leal e Ivan Hegenberg | Impressão: LGE Editora

Mostrando postagens com marcador nelson de oliveira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nelson de oliveira. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de novembro de 2012

Lançamento de Todos os Portais: Realidades Expandidas


Nelson de Oliveira aposentou-se definitivamente da literatura em 1° de janeiro de 2012. Ele, a mulher e a filha saíram do país. Fontes pouco confiáveis afirmam que estão no Caribe, gozando de merecidas férias. Em cima de sua mesa de trabalho foi encontrada (quem encontrou? não sei, talvez a empregada, talvez um parente próximo) uma pasta endereçada ao amigo e editor da Terracota, Claudio Brites. Dentro da pasta estavam os contos selecionados por Nelson para a antologia Todos os Portais + o texto de apresentação + o sumário (ordem em que os contos deveriam aparecer no livro) + recomendações gerais quanto à capa e o projeto gráfico. Havia também um bilhete endereçado ao editor: “prezado amigo, publique quando achar conveniente”.


E este é o momento. Dia 24 de novembro, após o III FECON, acontece o coquetel de lançamento da antologia Todos os Portais – realidades expandidas. Uma edição de colecionador, para este que é/foi um dos maiores projetos da literatura de gênero nacional.


A edição reúne alguns textos publicados nos seis volumes da revista independente Projeto Portal, que conta com os autores: 


Ana Cristina Rodrigues, Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Brontops Baruq, Carlos Emílio C. Lima, Claudio Brites, Fábio Fernandes, Geraldo Lima, Ivan Hegenberg, Jacques Barcia, Laura Fuentes, Luiz Bras, Marco Antônio de Araujo Bueno, Maria Helena Bandeira, Mayrant Gallo, Mustafá Ali Kanso, Petê Rissatti, Ricardo Delfin, Richard Diegues, Roberto de Sousa Causo, Tiago Araújo.


Quando? 
Sábado, 24 de Novembro de 2012, a partir das 15h30.

Onde?
Biblioteca Viriato Corrêa
Rua Sena Madureira, 298
Vila Mariana – 04021-050 São Paulo, SP



domingo, 4 de novembro de 2012

A última carta






Caros leitores,




Como a maioria de vocês já sabe, durante três anos, seis portais foram abertos no mapa da literatura brasileira. Seis passagens para outros mundos, outros metabolismos, outros sistemas de pensamento.
Portal Solaris surgiu no verão e Portal Neuromancer na primavera de 2008, Portal Stalker irrompeu no verão e Portal Fundação no outono de 2009, Portal 2001 apareceu no inverno e Portal Fahrenheit na primavera de 2010.

O Projeto Portal foi uma revista de contos de ficção científica editada no sistema de cooperativa. A pequena tiragem de cada número foi paga pelos participantes e os exemplares foram divididos entre eles.

O Projeto Portal não se destinava ao grande público, mas apenas ao pequeno grupo de aficionados mais refinados. Nosso lema era: poucos exemplares para poucos leitores exemplares. Por isso os exemplares da revista não foram vendidos, eles foram distribuídos entre os melhores leitores do país.

Para vocês terem uma ideia da dimensão do Projeto Portal, aí vão alguns números: foram 6 edições, 798 páginas, 44 autores, 129 contos (50 curtos, de até 3 páginas, e 79 longos) e 2.450 exemplares. Nada mal para um empreendimento sem qualquer finalidade comercial, cujo objetivo primeiro foi divulgar a boa ficção científica brasileira.

Todos os portais: realidades expandidas é uma seleção de narrativas dos seis números do Projeto Portal. São vinte e um contos, vinte e um autores. Agora em edição comercial.

Imaginem delicados psicotrópicos artificiais capazes de abrir as portas da razão e os portões da percepção. Imaginem sutis substâncias alucinógenas capazes de estimular a fantasia e a inteligência, sem provocar danos neurológicos irreversíveis. Todos os portais são essas drogas seguras.

Através deles a realidade de primeira ordem — o aqui e o agora percebidos pelos cinco sentidos — irá se desdobrar em outras realidades muito mais estimulantes: a da ciência, a da filosofia, a da arte e a da religião, todas de segunda ordem.

Outras leis físicas, metafísicas e patafísicas irão coordenar as constelações sensoriais.

O passeio por essas paisagens de segunda ordem, habitadas por personagens estranhos e sedutores, nunca é sossegado e monótono. É sempre perigoso e inquietante. E, por isso, muito prazeroso.


Boa transmigração.


Nelson de Oliveira

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Todos os Portais





Nelson de Oliveira aposentou-se definitivamente da literatura em 1° de janeiro de 2012. Há quem diga que sua família saiu do país. Estariam no Caribe, gozando de férias.

(Merecidas? Não sei. Sofro fobia do Caribe desde que li o Triângulo das Bermudas, de Berlitz. Sempre imagino aviões desaparecendo e naufrágios interdimensionais. Ok, as Bermudas não são o Caribe. Para mim, soa a mesma coisa, cenários de 007, republiquetas, revolucionários, bodegas, saias curtas, bananas, furacões, mares parasidíacos e pesadelos ocultos. Seja como for,)

a cunhada de Nelson de Oliveira encaminhou um conjunto de papéis para Claudio Brites, editor da Terracota. Sobre a mesa do apartamento, ela encontrou esta pasta na qual estavam os contos selecionados para a antologia Todos os Portais, bem como o texto de apresentação, o sumário, recomendações quanto ao projeto gráfico e à capa. Havia também um bilhete: "Prezado amigo, publique quando achar conveniente"

Este é o momento.

 



(Imagem R2D2, versão Piratas do Caribe, por Nook)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Escritores de Outro Mundo


(Por Felipe Moraes, no Correio Brasiliense. Via Lenda Urbana)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Portal Fahrenheit


Uma resenha recebida por e-mail

Caro Nelson, saudações.

Não sei se você vai se lembrar de mim… Conversamos rapidamente durante o lançamento do Portal Fahrenheit, na biblioteca Viriato Corrêa, e você até me presenteou com um exemplar da revista. Fui ao evento levado por alguns amigos, e apesar de não ser fã de carteirinha de ficção científica, li com muito interesse os contos publicados por vocês. Atendendo ao seu pedido, envio-lhe minha resenha do Portal Fahrenheit. Atualmente estou cursando Letras na Usp, e planejo mostrar a revista e minha avaliação também aos meus colegas de faculdade. Acho importante abrir as janelas da sala de aula e deixar entrar o contemporâneo. Talvez eu apresente o texto também como trabalho final, em uma das disciplinas.

O projeto de uma revista com cara de livro (os europeus fazem muito isso), mas sem finalidade comercial, me causou certo espanto. Como assim? A revista não será vendida? Esse pessoal da ficção científica está sempre inventando moda, pensei. Mas no final gostei da proposta. É uma forma pouco comum de cortar a corrente que liga a literatura ao comércio. Como se vocês dissessem: a grande arte não pode ter preço.

Durante a leitura fui dividindo os contos em três categorias: os de linguagem simples e enredo complexo, os de linguagem complexa e enredo complexo e os de linguagem complexa e enredo simples. Como você sabe muito bem (você me disse que fez pós-graduação na FFLCH, certo?), nós, da academia, estamos sempre de olho na intensidade e na personalidade da linguagem literária. Mas isso não significa que uma categoria seja intrinsecamente melhor do que a outra. São apenas diferentes.

Linguagem simples e enredo complexo

O mundo dos seus sonhos, de Mustafá Ali Kanso. Achei interessante o autor trazer o amor para a cena, usando-o como base num conto de ficção científica. Kanso narra, com sentimento, o incômodo na rotina de um casal em que o homem ama mais e daí “a dor e a humilhação de não ser correspondido… A espera de migalhas”. Na busca desesperada por uma saída, o homem recorre a um livro que ensina como conseguir a lucidez onírica por meio de técnicas trazidas da Antiguidade clássica. Então ele consegue esse sonho perfeito e nele se realiza. Encantado, ele vai cada vez mais fundo com as técnicas, desenvolve um aparelho e a partir daí a história se desenrola. A trama é bem construída, começa muito bem e vai num crescendo que envolve tecnologia futurista e tudo o mais. No entanto, se o conto provoca reflexão sobre os perigos da acomodação e dos descuidos no casamento, o final deixa a desejar, porque Kanso adiciona açúcar demais na mistura do encerramento, não permitindo ao leitor que viaje no desenvolvimento dessa receita.

Em O bunker cretáceo, de Ataíde Tartari, um prestigiado professor de Geofísica é chamado até a Antártida para ajudar a solucionar o seguinte mistério: a descoberta de uma enorme edificação de concreto que data de 65 milhões de anos. Como assim, concreto naquele período? Aprofundadas as escavações, os cientistas descobrem que a edificação, mesmo tendo permanecido debaixo da terra todo esse longo período, é habitada por uma raça excepcionalmente mais evoluída que a humana. Com bom domínio do texto, esse escritor nos traz uma história bem construída, bem contada e com final aberto, sobre como o passado remoto e escondido pode voltar para assombrar o futuro. E o humor é o grande diferencial dessa narrativa, pois Tartari, de forma hábil e mão leve, aplica uma fina camada de ironia sobre os conflitos naturais entre duas raças: a dos geofísicos e a dos paleontólogos, ambas disputando espaço em suas áreas de pesquisa. Uma leitura prazerosa.

Em Tempestade solar, de Roberto de Souza Causo, encontrei uma viagem interplanetária, um asteróide laranja e uma adolescente transformada na mais perfeita arma humana. Pronto, com esse ponto de partida, Causo, tarimbado ficcionista e ensaísta, nos fala de um futuro em que um importante laboratório de pesquisas médicas patrocina pesquisas de engenharia genética ilegal para a criação de trans-humanos. Com todos os artifícios e a terminologia própria do gênero, o autor soa confortável ao narrar a aventura de Shiroma, a garota que perde a mãe aos 5 anos e, desde então, vem sendo manipulada para dar conta de ações quase suicidas. Mas esse conto tem uma virada e a garota manipula seu destino. E aí está o ponto-chave nessa ficção deliciosa de ler, que abre a imaginação do leitor. Enredo e personagens tão bons, que pedem continuidade, e certamente atrairão cineastas e o pessoal dos quadrinhos. Eles que não bobeiem.

A trama de Réquiem, de Petê Rissatti, se passa num futuro não explicitado, onde o ato de sonhar é terminantemente proibido por lei, “sob pena de multa e até de execução”. Para evitar que as pessoas sonhem, o Governo Mundial distribui um medicamento específico (o Réquiem: Repressor Químico para Ecmnésia Mensurada, daí o título) e elas o tomam por medo de infligir as regras. Mas o conformado Ivan certa noite esquece de tomar a tal pílula e o inevitável acontece. A partir daí ele passa a ser perseguido, rebela-se, ingressa num grupo revolucionário e assim transcorre toda essa aventura. Um texto bem criado e bem conduzido por esse jovem autor, que descreve com detalhes consistentes a sociedade futurista por ele imaginada, até com pitadas de bom humor. O final cumpre a promessa estética do conto, pois surpreende, abrindo espaço para mais história na cabeça do leitor.

Deus é brasileiro?, de Sid Castro. O título não faz jus à diversão que encontrei nessa narrativa. A partir da imagem de um Cristo removido do corcovado, o autor instaura o movimento da Revolução de Deus nos Campos de Fé do Brasil. Dividido em três pequenos capítulos, a introdução apresenta com profundo sucesso o universo da guerra entre o Apostolado dos Trezentos Pastores e os pecaminosos Darwinistas, Coelhistas e Xavieristas. A Igreja Internacional Deus é Brasileiro salta das páginas a qualquer leitor que já tropeçou em um dos programas evangélicos que são transmitidos madrugada adentro. Há cenas dignas de um Tropa de Elite do Senhor, e é no final apoteótico dentro da Catedral de Brasília onde se desdobra o verdadeiro significado de um Apocalipse para a FC brasileira. As raízes culturais, a ironia levada a sério e o ritmo alucinante da narrativa tornaram esse conto um de meus favoritos.

Aspieville, de Laura Fuentes. Aqui a autora navega no tempo e por diferentes locais e países, e mergulha no Mal de Asperger (doença que vem ganhando bastante visibilidade) para criar uma ficção sobre uma época em que a ciência será capaz de criar seres portadores dessa doença, com o intuito de aproveitar a extrema concentração de seus portadores. Em prosa poética, Laura nos leva a conhecer melhor o cotidiano de crianças especiais, o seu desenvolvimento, e apóia sua narrativa no perigo das corporações utilizarem esse tipo de trabalhador em prol do incremento da produtividade e do lucro. A leitura é prazerosa e ao mesmo tempo assustadora, pois o futuro que a autora imagina está aí, na virada da esquina, uma vez que recentemente foi divulgada a notícia de que já conseguiram localizar o cromossomo responsável por essa doença. Fica a questão: será que esse conto deveria estar nesta antologia dedicada à sci-fi?

O apanhador do tempo, de Márcia Olivieri. A autora, em uma narrativa na primeira pessoa do singular, nos revela o testemunho de um réu estranho e misterioso, mas perde uma boa oportunidade de correlação com outro clássico Apanhador. Dono de uma longevidade alquímica, o protagonista segue justificando ao leitor muitos crimes inexplicados no decorrer do conto. A narrativa apressada não aprofunda muito bem o personagem ou o enredo, e me incomoda no que tange à verossimilhança de um relato perante um júri. Por fim, a história questiona o leitor, com um desenlace aberto que melhora o texto em certo aspecto, mas ainda assim me parece deslocado dentro de si mesmo.

Adorei o miniconto de Ricardo Delfin, Minhas férias. Uma vez vi alguém falando na televisão que tecnologia é tudo aquilo que foi inventado depois de nós nascermos. Achei engraçada a ideia das crianças circulando e tratando de temas comuns da ficção científica de forma bastante despachada, sem o menor respeito, sem a menor noção de perigo. Isso me fez pensar se não vivemos, nós, adultos, uma situação parecida, indiferentes ao alto preço que as próximas gerações irão pagar por tudo que andamos fazendo com o mundo. Essa é minha modesta interpretação… Mas a verdade é que se pode ler e rir muito com esse conto.

Linguagem complexa e enredo complexo

Meu amigo que acompanha o Projeto Portal comentou que o conto de Mayrant Gallo, Invasores, segue uma linha oposta daquele publicado no Portal 2001. Nesta nova narrativa não estamos em um Brasil superpotência, mas sim em uma realidade pós-apocalíptica na qual sofremos uma invasão alienígena que acabou por provocar uma regressão da civilização. A atmosfera acaba sendo a de um faroeste futurista, onde o Estado desapareceu e as comunidades precisaram se reorganizar um pouco por si mesmas. A maior força de Invasores está no crescente relacionamento entre os humanos e os invasores, mas eu penso que seria preciso mudar o foco da trama para o rapto em si, para que a ideia seja melhor aproveitada.

Mesozóide, de Danny Marks, é uma mistura breve e súbita de conceitos de FC — ciborgues, pós-humanismo, física atômica, viagens estelares e temporais —, em que o ficcionista nos apresenta sua versão de um exterminador do futuro mais possível, mais familiarizado com o universo da FC, que veio tentar evitar o que o autor batizou de Grande Erro. Ao final, a narrativa nos deixa a pergunta: será que ele teria sido bem-sucedido ou ainda virá a ser? Curto e dinâmico. Agradou bastante.

Pesquisando no Google descobri que (Ficção especulativa), conto de Brontops Baruq, usa uma referência antiga: o conto Ondulações no mar de Dirac, publicado há anos na revista Isaac Asimov Magazine, sobre uma máquina do tempo diferente. Ela só podia retornar ao passado, mas as ações realizadas lá não interferiam nos acontecimentos no momento presente. Ondulações, de Geoffrey Landis, usa essa ideia para tratar da vida estranha do protagonista, capaz de viver grandes peripécias, mas todas elas inúteis, sem resultado. A máquina de Brontops, apesar de usar o mesmo princípio, é usada para a investigação e a vigilância dos cidadãos, e vemos a história sob o ponto de vista de uma dupla de policiais. Desconfio que existem vários pontos para discutir neste conto, mas, para mim, sobressai a questão do poder da autoridade.

O conto do Abílio Godoy, COMum, como o de Kanso, parece ter recebido influência do filme A origem. Afinal ambos tratam da capacidade de se adentrar no mundo dos sonhos… Ou algo parecido com isso. Mas o resultado é bastante distinto e bem menos pirotécnico, e a linguagem do conto é tratada com bastante cuidado… Talvez seja o mais relevante, nesse sentido. Porém, não sei se por isso mesmo, me deu a impressão de muita frieza ou melancolia. É a história da desilusão de um cientista que participou do planejamento e da criação de um sistema para navegação coletiva em sonhos… Mas ele foi expulso da jogada porque o projeto foi encampado por corporações interessadas em lucrar com o aparelho. Foi desenvolvido então uma espécie de jogo (o COMum) no qual o melhor ilusionista ganha a competição. Eu não gosto de dar explicações alegóricas, mas entendi essa narrativa como uma crítica ao sistema artístico e como este acaba se curvando às necessidades econômicas. Eu poderia resumir assim a mensagem final: quando o sonho deixa de ser sonho, vira realidade.

O conto Devoção, de Izilda Bichara, é uma deliciosa narrativa nonsense protagonizada por duas figuras do universo on-line: o Homem Google e a Mulher Antivírus. Quem aprecia as criativas e irreverentes ficções de autores como José Agrippino de Paula e Paulo Leminski, vai se divertir muito com as peripécias dessa dupla de cores e formatos estranhos. A autora certamente é apreciadora da arte e da literatura surrealista, pois Devoção mistura sonho e realidade, dialogando de modo muito criativo com o trabalho de Salvador Dalí e Luis Buñuel, dois criadores que sempre me agradaram muito.

A Senhora do Lago, de Georgette Silen, única autora que eu conhecia nessa revista. Conheci a narrativa cadenciada de Georgette no conto O caçador de Deus, da coleção Paradigmas, e já li uma entrevista da autora no site Criando Testrálios. Fã declarada de As brumas de Avalon, nesse conto a autora cria uma versão middlepunk de um relacionamento às avessas entre Galahad e Arthur. Nela, Merlin possui um implante de canhão no lugar de um braço e os cavaleiros da Távola redonda cavalgam bestas metálicas articuladas com engrenagens de estanho. No universo da autora, Morgana de Avalon faz um papel alienígena junto aos seus, “os Celtas, o povo que veio das estrelas”. Diante de uma Excalibur prismática, menestréis testemunham espadas com fio a laser cerzindo juramentos de lealdade tirados das novelas de cavalaria. Uma boa surpresa num livro de FC, para quem, assim como eu, se declara um fã da saga pendragoniana. Não vejo a hora de buscar Lazarus, o mais recente lançamento da autora.

Os olhos do gato, de Luiz Bras, é sem dúvida um dos meus favoritos na coletânea. Fiquei fascinado com a maneira que o contista combina forma e conteúdo dentro da literatura de gênero. Nesse conto, acompanhamos uma versão moderna do mito das amazonas, onde mulheres, homens e gatos de estimação compõem uma fábula breve sobre os horrores, as maravilhas e as verdades de se tornar um adulto. A fórmula estrutural simula uma sucessão de flashbacks entremeada por cortes como os de um filme, facilitando muito a imaginação do leitor ao longo da narrativa. A coisa que mais chama a atenção são as nuances emocionais da protagonista, que vão da doçura à frieza calculista bem feminina. O trecho mais marcante na minha leitura foi: “Crescer é se perguntar todos os dias: de quantas maneiras uma pessoa pode se ferir?”

O banho de Diana (sonata tripla em pi menor), de Bruno Cobbi, protagonizado apenas por mulheres guerreiras, investe na releitura paródica de certa história da mitologia grega. Diana, grávida, acorda num vagão de metrô deserto, numa estação vazia. Sua solidão é física e metafísica, e o suspense começa a tomar conta da trama. Cobbi foi muito competente ao criar um enredo de mistério e solidão, com final cíclico surpreendente. É curiosa a atitude do autor em explorar conceitos de matemática, geometria e mitologia grega na FC, algo que me parecia inédito até então. O conto é repleto de pequenas referências e vale uma segunda leitura com olhos bem atentos ao título.

Novembro / 3001, de Marco Antônio de Araújo Bueno, traz uma linguagem contaminada pelo vocabulário acadêmico, o que torna seu narrador metódico e irônico. Reconheci em seu labirinto narrativo certas imagens de autores célebres como Machado de Assis e Euclides da Cunha. O conto, apesar de curto, é um vasto mosaico distópico e bizarro, no qual cabe quase tudo: pós-humanos, contrabandistas de órgãos, milícias tribais, mortos-vivos, criaturas andróginas, programas de reabilitação etc. O comentário de meu amigo especialista em FC foi: “Esse conto não chega a pertencer à estética cyberpunk, tampouco à new weird, mas está confortavelmente instalado entre ambas.”

Linguagem complexa e enredo simples

On, de Cláudio Brites, investe na forma modernista, com toques de surrealismo e expressionismo, ao apresentar um misterioso diálogo inserido num único fluxo discursivo. Não há travessões nem aspas, o diálogo ocorre separado apenas por vírgulas, num parágrafo longo e solitário. Esse parágrafo monolítico e a trama bizarra sobre uma cabeça sofrendo uma pane mental instauram o mais puro horror. O jovem contista talvez tenha alguma ligação com o teatro, pois On, na minha opinião, é uma narrativa curta que também ficaria muito bem no palco, como certos esquetes de humo negro, de Beckett e Ionesco.

A palavra tundra remete a um ambiente congelado, com pouca vida. Não é o que acontece no conto Tundra, de Tiago Araújo. Aqui tudo é bastante expressivo e vivo. A linguagem das ruas é empregada em um ambiente estranho (ou seria um ambiente cotidiano tornado estranho por essa linguagem?). Apesar das cores fortes, expressionistas, a história não me soou muito clara: boa parte dela descreve policiais e enfermeiras em uma padaria… Tem-se a impressão de a cena ser parte de um universo maior (a referência ao tal Coletivo-dos-Anjos) e de um mundo no qual pode-se morrer e arrumar um novo corpo em seguida. Talvez a tundra esteja na frieza com a qual morre-se bestamente e na indiferença dos “canas rasgando o cu do mendigo”.

Maria Helena Bandeira (descobri agora há pouco que ela é sobrinha do poeta Manuel Bandeira, meu predileto) comparece com quatro narrativas curtas, todas excelentes. Confesso que sua ficção poética e melancólica, em que o estranho aparece casado com o maravilhoso, me encantou fortemente. Penso ter divisado em seus contos (principalmente em Por uma flor e a boca vermelha e Em um dia de verão marciano, amor), em que a água parece ser um elemento transformador, algo de Borges e de Ray Bradbury. Ou seja, um modo de tocar fundo na inteligência emocional do leitor, mais do que em sua inteligência racional.

Finalizo esta mensagem dando os parabéns ao organizador e ao grupo de contistas. Não li os cinco números anteriores da revista, mas se apresentaram a mesma qualidade deste Portal Fahrenheit, e acredito que apresentaram, não resta dúvida de que o conjunto conseguiu atingir o objetivo proposto: fazer circular, fora do gueto, a boa ficção científica brasileira.

Um abraço do

Breno J. Portugal





(imagem de Scott Campbell representando Ray Bradbury. Via Hey Oscar Wilde!)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Depoimentos de autores do Portal Solaris



Extraído do antigo blog do Mayrant Gallo

"Não há diferença entre realidade, imaginação e sonho. Para o cérebro humano é tudo a mesma coisa. Por isso, não separo minha literatura em rótulos. O que realmente importa é buscar a perfeição, seja na FC, na literatura fantástica, ou na literatura a-vida-como-ela-é. Vivemos um momento especial da literatura nacional, mas instável. Muita publicação, pouca leitura. Muita festa, pouca reflexão. Chega de bossa-nova, a literatura quer delírio! No livro O lobo da estepe', do escritor Hermann Hesse, há um letreiro que chama a atenção do protagonista: SÓ PARA OS RAROS; como também o subtítulo do folheto O tratado do Lobo da Estepe: SÓ PARA LOUCOS. Portal Solaris é isso, uma revista só para os raros... só para loucos."
Homero Gomes


"Acho que o melhor da ficção científica – por exemplo, Bradbury, Huxley, Orwell, Dick – vai muito além dos clichês e atinge o patamar da alta literatura. Do mesmo modo, Márcia Denser e Henry Miller fazem muito mais do que literatura erótica, Rubem Fonseca não faz apenas romance policial, nem Edgar Allan Poe escreve terror para assustar criancinhas."
Ivan Hegenberg


"Entrei neste mundo viajando pelo espaço sideral, já que, como muitos garotos de minha geração, crescendo nos anos 60 e 70, era de foguetes e espaçonaves que era feita minha imaginação. Com os pés no chão literário, porém, descobri outras possibilidades. Estudei "creative writing", fiz workshop na terra dos romances feitos com receita, escrevi dois deles em inglês, cansei. Hoje a originalidade do meu texto vem desta influência toda, sem dúvida alienígena."
Ataíde Tartari


"Na minha opinião, salvo raríssimas exceções a linha principal da nossa literatura não conseguiu apresentar nada de novo, nada de vivo, nos últimos dez anos. Livro após livro as mesmas formas e os mesmos conteúdos têm sido revisitados monotonamente por centenas, milhares de estreantes e veteranos. Acredito que a mistura de gêneros e linguagens é a melhor maneira de melhorar essa situação. A ficção científica, gênero riquíssimo em novos assuntos e instigantes desafios da linguagem, precisa ser descoberta pela linha principal da literatura brasileira. E vice-versa. Penso que o Projeto Portal tem tudo pra ser um passo seguro nessa direção."
Luiz Bras


"Muito me encanta aquela literatura inventiva, criativa, poética, que transcende a mera descrição, narração ou exacerbação realista. No entanto, em pauta hoje, no Brasil, estão uma literatura ultra-estilista ou ultra-realista, que se volta ora para si mesma ora para a realidade sobretudo urbana, em sua pretensão ingênua de descrevê-la, entendê-la ou explicá-la. Sendo assim, Portal Solaris, uma vez que se propõe a ser uma revista de Literatura Fantástica e Ficção Científica, é de suma importância para conhecer o que vem sendo feito de diferente e criativo na literatura brasileira contemporânea."
Rogers Silva



"O que me parece que vai resultar de mais fundamental nesse ajuntamento de autores de uma mesma tendência estético-literária num projeto editorial comum é a criação de um novo continente literário no Brasil, Afinal, por não se demonstrar unificado, esse continente ainda não "existia", não ressoava seus contornos, conteúdos abissais, não se auto-gerara, permanecia fragmentado, composto de ilhas loucas sem pontes ou navegações entre elas. Desconectados, seus habitantes, individualizados demais, vivíamos nas ilhas escrevendo sozinhos como náufragos e nem tínhamos garrafas estelares como este Portal Solaris para enviar mensagens pelo mar. Agora, com essa iniciativa do Nelson de Oliveira, podemos até pensar em um manifesto, em uma carta de princípios, alguma coisa que desse fundamento, colagem semântica a esse, de fato, notável acontecimento literário. Acho que, sem querer, pela força demasiada da inércia em que vivíamos, o pêndulo agora oscilou no sentido do movimento, da ação. Nós, os patinhos feios da literatura brasileira, escritores criadores de todo esse lado da fantasia, do numinoso, da ficção de antevisão, das novas visões e dimensões, dos temas quase impossíveis, da ficção do imagináriio, da ficção científica e também da ficção estética (uma variante da ficção científica que penso ter inventado em 1988), somos uma alternativa ilimitada ao neo-naturalismo limitado que se apoderou da realidade, que grasna e prolifera totalitário-midiático."
Carlos Emílio C. Lima



"Sou um aficionado do conto fantástico, que já fez parcerias geniais com a ficção científica. É o caso do meu autor preferido no gênero, Ray Bradbury, autor de um livro extraordinário: Os frutos dourados do sol. Bradbury vai muito além de meros recursos imaginativos associados a um conhecimento científico. O fantástico, nele, é potencializado pela linguagem poética, pelo domínio da linguagem expressiva. É, portanto, literatura de alta qualidade. E é justamente isto que sinto falta na maior parte da Science Fiction: textos que nasçam de um impulso profundo, como todas as grandes obras artísticas, e não frutos de uma mera engenhosidade. Daí o entusiasmo com o qual recebi a proposta de Nelson de Oliveira de criação dessa revista que tem como proposta justamente isto: unir os recursos da ficção científica com a alta literatura, buscando uma renovação do gênero entre nós."
Carlos Ribeiro


"Mais do que entretenimento, sience fiction é reflexão. Permite que, através de um simples deslocamento, possamos refletir sobre o nosso meio e o nosso tempo, exarcebando idéias, sentimentos, sonhos, utopias, medos. Se uma fatia dos leitores, os falsos-realistas, se incomoda é porque é difícil conviver com a ausência de máscaras. A idéia de fim de mundo (uma fixação da ficção científica), por exemplo, não seria ao mesmo tempo pesadelo e alerta? Logo, a FC tem um duplo alcance: nos permite sonhar e nos faz amargar o que somos, seres irresponsáveis."
Mayrant Gallo

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Eventos




a)Bruce Sterling no Brasil


Um dos lançadores do Movimento Cyberpunk e autor de Tempo Fechado e Piratas de Dados, o americano Bruce Sterling estará em São Paulo entre os dias 2 e 7 de dezembro de 2010. Em promoção das editoras Devir e Terracota, e da Universidade Cruzeiro do Sul, Sterling estará ministrando oficinas dentro do I Encontro Extensão para o Futuro - informações AQUI

03/12 – 19h30 às 22h30

Mesa de Abertura:
Profa. Dra. Sueli Cristina Marquesi – Reitora da Universidade Cruzeiro do Sul
Prof. Dr. Renato Padovese – Pró-reitor de Extensão da Universidade Cruzeiro do Sul
Prof. Douglas Quinta Reis – Diretor Editorial da Devir Livraria
Prof. Claudio Brites – Diretor Editorial da Terracota Editora

Workshop: “Ficção Científica para o Século 21″
Convidado: Bruce Sterling
Mediação: Roberto de Souza Causo – Especialista em Ficção Científica e Escritor

04/12 – das 10h às 12h

Painel: “Design e Desafios do Século 21″
Convidado: Bruce Sterling
Mediação: Priscila Henning (História da Arte, Arquitetura e Restauro)
Elisabete Barbosa Castanheira (Desenho, Criatividade, Programação Visual)

04/12 – das 13h30 às 15h30

Workshop “Design e Futurismo
Convidado: Bruce Sterling
Mediação: Priscila Henning (História da Arte, Arquitetura e Restauro)
Claudia Trevisan Fraga (Programação Visual, Projeto Gráfico, Editoração)

*

O autor também fará sessão de autógrafos na FNAC Paulista (Av. Paulista N.º 901, Bela Vista, São Paulo-SP, perto do da Estação Brigadeiro do Metrô), no dia 6 de dezembro, das 18h30 às 21h30.



b)Cosmovisão: A Literatura Encontra a Tecnologia, a Arte Encontra a Ciência.


Nelson de Oliveira Dará Curso sobre Ciência e Cultura: nos dias 29 de novembro, e 1 e 3 de dezembro, o escritor e crítico Nelson de Oliveira dará um curso no Espaço Terracota (Av. Lins de Vasconcelos, 1886, Aclimação - São Paulo), chamado "Cosmovisão: A Literatura Encontra a Tecnologia, a Arte Encontra a Ciência".

Neste curso serão discutidos os avanços tecnológicos mais inquietantes, com o objetivo de mostrar como eles estão influenciando também a arte e a literatura do nosso tempo, enriquecendo-as. Também veremos de que maneira noções complexas como o tempo, o infinito, a realidade, a consciência e o inconsciente aparecem na obra de Giorgio de Chirico, James Joyce, Salvador Dali, Jorge Luís Borges, MC Escher, Philip K. Dick, William Gibson e outros.

1ª aula: o universo e nossa posição nele.
2ª aula: a vida, sua origem e seu futuro.
3ª aula: o cérebro humano e seus superpoderes.

Informações, AQUI


(Texto de Roberto Causo + um ou outro acréscimo meu (colado do site da Terracota). Imagem via DigArtMedia)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

"Parece invenção a influência da Ficção Científica"





"Eis o motivo do gênero estar em voga atualmente: vivemos num século cujas principais inovações científicas foram imaginadas por artistas. Sim - vivemos em um mundo de ficção científica. E parece que não há nada mais para ser inventado ou imaginado."

Trecho da coluna de Alexandre Matias, com o título desta postagem, no Caderno 2 de 08 de agosto no Estadão. Menciona o filme "A Origem" de Christopher Nolan. Eu não assisti à "película" (ainda é película?), mas o pouco que li a respeito me remeteu ao anime "Paprika", indicado ao Leão de Ouro de Veneza de 2006 (!), de Satoshi Kon (o mesmo diretor de Tokio Godfathers) e baseado no romance de Yasutaka Tsutsui.

Leia o trecho de uma resenha que encontrei AQUI:

"Contar a estória do filme é tarefa um pouco complicada. Um instituto psiquiátrico está desenvolvendo um aparelho chamado DC Mini que permite que se assista aos sonhos do paciente, uma grande promessa para o desenvolvimento de novos tratamentos. Como é de se esperar, alguns aparelhos somem antes que sua versão final seja aprovada gerando desespero da residente Dra. Atsuko Chiba, seu colega inventor Kosahu Tokita e o chefe Dr. Torataro Shima. Acrescenta-se ao time o detetive Tokimi Konakawa.

Tentar entender todas as idas e vindas dessa jornada em busca dos aparelhos desaparecidos seria pretensão depois que nos deparamos com a parada de “todas as coisas que existem”. Se nos deixarmos adentrar essa seqüência, o ponto alto do filme, podemos nos perder para todo o sempre. Darumas, bonecas russas, a estátua da Liberdade e um portal xintoísta se misturam sem hierarquia numa procissão que toma conta da cidade numa cadência que arrepia. A música animada-psicótica foi criada por Susumu Hirasawa."

Mais gente notou esta semelhança AQUI.

Outros, entretanto, acusam o filme de ter se inspirado no Tio Patinhas, conforme vemos AQUI.

De todo modo, Paprika é um grande anime. Quem curtir, assista.

* * * * * *

Certamente, devido ao horário desta postagem, será quase impossível alguém assistir... Mas hoje (dia 08 de agosto), às 21:30, Nelson de Oliveira, o organizador das antologias do Projeto Portal dará um entrevista no Entrelinhas da TV Cultura... Mas devem disponibilizar na rede... (Desculpem, esqueci de postar antes)

* * * * *


P R O J E T O P O R T A L B L O G F E E D