Projeto Portal foi uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa durante os anos de 2008 e 2010. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — foi distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Seis números (de papel e tinta, não online). O título de cada revista homenageou uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.


Idealização: Nelson de Oliveira | Projeto gráfico e diagramação: Teo Adorno
Revisão: Mirtes Leal e Ivan Hegenberg | Impressão: LGE Editora

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sábado, 3 de novembro de 2012

Shiroma Matadora Ciborgue


 “Shiroma, Matadora Ciborgue” surgiu dentro do “Projeto Portal”, uma série de seis revistas semestrais de contos de ficção científica editada por Nelson de Oliveira entre 2008 e 2010. A trans-humana Shiroma é uma assassina hesitante, raptada da Terra ainda criança e levada por um casal de mercenários, Tera e Tiago, para ser treinada como matadora de aluguel.
  
A primeira narrativa, “Rosas Brancas” (em Portal Solaris), trata do seu sequestro e de como sua mãe, Nara Nunes, foi morta. “Concha do Mar” (Portal Neuromancer) conta como ela encontrou uma concha do mar em um mundo alienígena onde fora levada para um teste de sobrevivência, uma concha que simboliza a sua angústia íntima com o sequestro e a morte da mãe, que, na mente de Shiroma, passa a habitar, como voz incorpórea, o interior da concha. “O Novo Protótipo” (Portal Stalker) conta como ela realizou o seu primeiro assassinato, no Bairro da Liberdade, em São Paulo. “Cheiro de Predador” (Portal Fundação) mostra a heroína um pouco mais senhora de si como matadora, ao penetrar, com a ajuda de dois alienígenas, a segurança de um mundo altamente vigiado. Em “Arribação Rubra” (Portal 2001) ela cai em um ponto obscuro de um planeta alienígena, quando o seu veículo é sabotado a caminho de uma nova missão. Finalmente, em “Tempestade Solar” (Portal Fahrenheit), a matadora se defronta com o passado, e prepara violentamente o seu futuro — a ser desenvolvido em outras histórias.

“Tempestade Solar” será republicada em novembro de 2012, na antologia Todos os Portais: Realidades Expandidas (Terracota Editora), organizada por Nelson de Oliveira.
      
A série partilha do mesmo universo ficcional das aventuras de Jonas Peregrino, um herói de space opera militar que estreou com a noveleta “Descida no Maelström”, publicada em 2009 na antologia Futuro Presente, organizada por Nelson de Oliveira para a Editora Record, do Rio de Janeiro. Outras aventuras de Peregrino apareceram nas antologias Assembléia Estelar (Devir), editada por Marcello Simão Branco, e Space Opera: Jornadas Inimagináveis em uma Galáxia Não Muito Distante (Draco), editada por Hugo Vera & Larissa Caruso.

Nesse projeto, os dois personagens principais, Shiroma e Peregrino, irão se encontrar mais adiante, as duas séries se entroncando em uma única narrativa — uma vasta e complexa space opera.


 (Imagem: selo destinado às narrativas da série “Shiroma, Matadora Ciborgue”, em arte original de Vagner Vargas)


 

domingo, 28 de outubro de 2012

Colecção Argonauta






(Capa de "O Mundo dos Draags" de Stefan Wul, que originou "O Planeta Selvagem" ou "O Planeta Fantástico" de René Laloux)




O blog da "Colecção Argonauta" pretende ser "... uma homenagem (...), um memorial que esperamos possa contribuir para esclarecer possíveis dúvidas relativas aos números publicados, bem como constituir um espaço de partilha, onde comentários relativos às obras possam ajudar a enriquecer o vasto universo de memórias aqui reunido."

Segundo o Wikipedia, a Colecção Argonauta foi publicada de 1954 até 2006 com 563 edições de bolso, repleta de figurinhas e figurões (Aldiss, Heinlein, Bradbury, Asimov, Farmer, Clarke, Herbert, Dick, Le Guin, Ballard, Capek). Parece piada, mas apesar de ser publicada por uma editora chamada "Livros do Brasil", a venda dos livros era "interdita na República Federativa do Brasil".  Proibida ou não, parte da coleção chegou ao país, conforme vemos neste artigo - já um tanto antigo (2006) - de Roberto de Sousa Causo para a Terra Magazine, "A Leitura faz o Leitor" que reproduzo (copio/colo) aqui embaixo.

"
Quando comecei a participar da comunidade brasileira de ficção científica, lá por 1983, foi difícil para mim entender o fascínio que a Coleção Argonauta exercia sobre os outros fãs - especialmente os mais velhos, reunidos em torno do Clube de Leitores de Ficção Científica.

Eu pouco ouvira falar da coleção - afinal, cresci lendo a FC encontrada na série alemã Perry Rhodan, nos livros de FC da Hemus, na coleção Mundos da Ficção Científica, e nos livros de FC publicados pela Bolsilivros que eu podia encontrar em bancas de revista na cidade interiorana em que vivia.

De fato, só passei a compreender o encanto que a Argonauta exercia sobre os fãs mais velhos a partir do instante em que me voltei para o meu próprio fascínio por Perry Rhodan e pela Mundos da Ficção Científica, e percebi que cada geração tem a sua coleção ou as suas coleções formadoras.

Isso acontece porque, em geral, o fã de FC é alguém que retorna seguidamente ao seu interesse pelo gênero e nisso, ele precisa ser alimentado de alguma maneira. Nos Estados Unidos, tal papel por muito tempo coube às revistas especializadas. Ainda hoje elas são o celeiro dos melhores autores e dos fãs mais fiéis. Já em outras partes do mundo - especialmente no mundo de fala portuguesa ¿ o papel muitas vezes cabe às coleções.

A Argonauta, da Livros do Brasil (Portugal), certamente se salienta nessa tarefa de gerar e manter os fãs do gênero por sua antigüidade, periodicidade e pelo preço em geral acessível. Houve um tempo em que seus livros chegavam a uma boa parcela das livrarias brasileiras, e até mesmo a algumas bancas de revista, se não estou enganado.

No final da década de 1980, eles começaram a escassear e, durante os anos noventa se concentraram em umas poucas livrarias que ainda buscam permitir que os leitores brasileiros mantenham contato com o mundo editorial português. Em uma delas, a saudosa Livraria Paisagem, o Clube de Leitores de Ficção Científica realizou suas reuniões mensais por muitos anos. Outra é a Themus Livros, também de São Paulo.
O CLFC, aliás, também nasceu associado ao fenômeno dessa coleção ¿ em 1985 o fã R. C. Nascimento publicou em edição do autor o livro Quem É Quem na Ficção Científica Volume I: A Coleção Argonauta, com a famosa ficha de inscrição na última página, pedindo que outros fãs lhe escrevessem para montar o que ele chamou de "Clube de Leitores de Ficção Científica".

Nascimento escolheu bem a plataforma para o seu gesto de comunicação com outros fãs - aparentemente a Argonauta já despertava paixões entre pessoas que não se conheciam, e que se sentiram entusiasmadas com a descoberta de outros "semelhantes".

E assim foi que a Coleção Argonauta se tornou o componente de uma subcultura nacional que, por suas origens, comunica-se com uma vasta subcultura global formada por fãs de FC e fantasia em todas as partes do mundo.

Não sei se o apelo da coleção é tão forte em seu país de origem quanto o é entre nós, pois Portugal teve e tem várias coleções de importância e prestígio, algumas mais conhecidas dos fãs mais jovens, como a Ficção Científica Europa-América, e a Caminho Ficção Científica; esta última, agora cancelada, foi por um bom tempo o refúgio derradeiro do autor de FC em língua portuguesa, em ambos os lados do Atlântico, pela atuação do editor António Belmiro Guimarães.

Voltando à tese destas linhas, cada geração de fãs possui em coleções distintas os seus formadores, os motivadores daquela chama insubstancial e de difícil definição, que faz o fã de FC.

A Argonauta certamente formou a geração mais nobre do fandom brasileiro - fãs empreendedores como o próprio Nascimento, que, ao fundar o CLFC, criou uma pequena revolução; seu parceiro nos anos iniciais, Ivan Carlos Regina; e outros que se alternaram na direção do clube, incluindo Luiz Marcos da Fonseca e Humberto Fimiani.

Mas o que isso significa?

Em parte, a certeza de que os escritores publicados na Argonauta detém um lugar especial no coração desses fãs. Autores como Clifford D. Simak, Robert A. Heinlein, A. E. van Vogt, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Philip José Farmer, Ursula K. Le Guin, Robert Silverberg, Frederik Pohl, Philip K. Dick e mais um monte de autores franceses, provavelmente conhecidos apenas dos leitores da Argonauta. Nesse mesmo sentido, significa que o tipo de FC encontrada na coleção tem igualmente um lugar especial no coração desses fãs. A coleção se tornou um lar para todos eles.

Talvez aqueles que, como eu, devem algo a Perry Rhodan, FC Hemus, e à Mundos da Ficção Científica, tenham outros autores e uma outra ficção científica em mente - embora muitos deles tenham aparecido também na Argonauta.

Mas não acho que isso cause um, digamos, "abismo" entre gerações de fãs brasileiros. O que parece ser o problema maior passa longe dessa consideração. Ao contrário, ele se refere justamente ao fim das coleções no Brasil, e a dificuldade das coleções portuguesas em serem distribuídas e lidas aqui. Sem um lar, sem um abrigo, como podem os novos leitores, os novos fãs, surgirem?

Minha suspeita é de que não podem. A ponte fica incompleta, então. Aqueles fãs que já estão por aí há algum tempo cada vez mais recorrem aos livros em inglês, mas eles já passaram pelo seu período formador lendo alguma coisa em português, a Argonauta provavelmente.

O futuro da comunidade brasileira de FC se torna uma incógnita. Haverá uma nova geração, e formada através do quê? Do cinema, que parece ter destruído a FC nesse meio, justo agora que as imagens geradas por computador prometem um realismo nunca antes alcançado pelo gênero - e níveis de imbecilidade também nunca alcançados, nem mesmo na infantil FC da década de 1950? Serão os novos fãs garimpeiros de sebo, revirando o passado editorial brasileiro e português, em busca do que os inspire?

Resta torcer para que surja uma outra coleção, como aquela prometida este ano pela Devir, de São Paulo."


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Gethen






"
A ficção científica costuma ser descrita, até mesmo definida, como extrapolação. Espera-se que o escritor de ficção científica pegue uma tendência ou um fenômeno do presente, purifique-o e intensifique-o para efeito dramático e estenda-o para o futuro. “Se isto continuar, eis o que acontecerá.” Faz-se uma previsão. O método e o resultado assemelha-se aos do cientista que alimenta ratos com grandes doses de suplementos purificados e concentrados, a fim de prever o que pode acontecer às pessoas que comem aquilo em pequenas doses e por um longo período. O resultado parece ser quase sempre câncer. Assim ocorre com o resultado da extrapolação. Obras de ficção científica de estrita extrapolação chegam mais ou menos onde chega o Clube de Roma: em algum ponto entre a extinção gradual da liberdade e a extinção total da vida na Terra.

Isto talvez explique por que muitas pessoas, que não lêem ficção científica, a descrevam como “escapismo”, mas, quando questionadas mais a fundo, admitem que não lêem ficção científica porque é “muito deprimente”.

Qualquer coisa levada a seu extremo torna-se deprimente, quando não cancerígena.

Felizmente, embora a extrapolação seja um elemento da ficção científica seja um elemento da ficção científica, não se trata, de forma alguma, de sua essência. A extrapolação é racional e simplista demais pra satisfazer a mente criativa, seja a do leitor ou a do escritor. Equilíbrio é o tempero da vida.

(...)"


Trecho da Introdução de Ursula Le Guin em "A Mão Esquerda da Escuridão"




Imagem:
Mapas do Planeta Gethen/Inverno


Via Wikipedia, Fonte AQUI

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Os melhores romances da FC brasileira




"Há algumas semanas, conversando com meu colega de Anuário, Marcello Branco, discutimos a respeito dos melhores romances da ficção científica brasileira. Esta é uma daquelas discussões difíceis, porque passa por muitas definições nem sempre possíveis, especialmente em se tratando de ficção científica, além da definição de romance que, no Brasil, tem a ver com a forma narrativa e, nos EUA, com o tamanho físico do texto.
Como eu me importo muito pouco essas definições, vou fazer aqui um levantamento do que, na minha opinião, está entre o melhor que os autores brasileiros de ficção fantástica já produziram."



Postagem em duas partes no "Mensagens do Hiperespaço" AQUI e AQUI.



Imagem fonte AQUI

segunda-feira, 25 de julho de 2011




"Existem dois tipos de verdade: a verdade que ilumina o caminho e a verdade que aquece o coração. A primeira é a ciência, a segunda é a arte. Nem uma é independente da outra nem mais importante que a outra. Sem a arte a ciência seria tão inútil quanto um fórceps nas mãos de um encanador. Sem a ciência a arte seria uma bagunça danada feita de folclore e charlatanismo emocional. A verdade da arte evita que a ciência se torne desumana, e a verdade da ciência evita que a arte caia no ridículo."

Raymond Chandler.



(Via revista Coyote nº21)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

The Integral Trees



Esta ilustração de Michael Wheelan foi feita para o livro "Integral Trees" (1983), de Larry Niven.


Sobre o cenário do romance, roubei e traduzi de forma precária o verbete do Wikipedia:

"A história se desenvolve na estrela de nêutrons Levoy (abreviada como Voy). O planeta Mundo de Goldblatt (abreviado Gold), um gigante gasoso ao estilo de Júpiter, orbita esta estrela no limite de Roche. A gravidade do planeta é insuficiente para segurar sua atmosfera que é sugada para uma órbita independente ao redor da estrela, formando um anel atmosférico ao redor da estrela, chamado Gas Torus. O anel é gigantesco, um milhão de quilômetros de espessura, e a maior parte dele é tênue demais para ser habitável. Entretanto, o miolo do anel é denso o suficiente para sustentar vida. Esta parte central do Gas Torus é conhecido como Anel de Fumaça e abriga uma ampla variedade de vida.

Não existe "chão" no Anel de Fumaça; é um mundo que consiste apenas de céu. A maioria dos animais voa, inclusive peixes. Não existe em cima ou embaixo. A maioria dos animais tem simetria trilateral, permitindo a visão em todas as direções.

A maioria das plantas do Anel de Fumaça são muito frágeis, já que elas não tem como suportar o próprio peso (Entendi direito?). Uma notável exceção é a colossal Árvore Integral (Integral Trees). Elas têm mais de 100 quilômetros de comprimento."

Leia todo o verbete AQUI.

Acho que nunca foi traduzido ou publicado em português. Se eu descobrir algo diferente disso, edito o post.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Rendezvous with Rama

Uma música.



Rendezvous with Rama, por Yojimbo Billions.

* * *

A Aleph acabou de lançar o Encontro com Rama, de Arthur C.Clarke.

Sinopse (via o site da editora):

Encontro com Rama conta a história de uma terrível colisão de um meteorito contra o continente europeu. Após o acontecimento, líderes mundiais e cientistas reuniram esforços para evitar que catástrofes dessa natureza voltassem a acontecer. Quase cinquenta anos depois, a humanidade atônita acompanha a chegada de um novo astro ao Sistema Solar. De proporções inimagináveis, Rama espanta e ameaça, pois avança firmemente na direção de nosso Sol. Uma expedição é enviada para explorar os mistérios do que se imagina ser um colossal meteoro.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Capas

Link
Imagem de Tim White, para o livro Critical Treshold.



Quem me levou ao ótimo (embora talvez abandonado) site de ilustrações fantásticas, o Fan-tas-tic foi a discussão sobre Capas de Livros que surgiu em uma postagem do "É só outro blog".

segunda-feira, 18 de julho de 2011





"A bad book hurts science fiction more than ten bad notices"
Damon Knight



Via Blade Runner, de João Seixas.

domingo, 17 de julho de 2011

O Futuro do Presente no Pretérito, de Carlos Haag





Na Revista FAPESP, um artigo de Carlos Haag conta a história da Ficção Científica no Brasil.

Abaixo um trecho:


Desde o século XIX o gênero provou ser um veículo ideal para registrar tensões na definição da identidade nacional e do processo de modernização. Essas tensões são exacerbadas na América Latina e, por isso, a produção da ficção em países como Brasil, Argentina e México, grandes representantes desse gênero no continente, é muito mais politizada do que a escrita nos países do Norte. No Brasil, o gênero ajudou a refletir uma agenda política mais concreta e os escritores, ontem e hoje, estão mais intimamente envolvidos com os rumos futuros de seu país e usaram o gênero nascente não apenas para circular suas idéias na arena pública, mas também para mostrar aos seus compatriotas suas opiniões sobre a realidade presente e suas visões sobre um tempo futuro, melhor e mais moderno”, explica a historiadora Rachel Haywood Ferreira, da Universidade do Estado de Iowa, autora de The emergence of Latin American science fiction, que acaba de ser lançado nos EUA pela Wesleyan University Press. “A ficção científica brasileira permite traçar a crise de identidade que acompanhou a modernização, juntamente com o senso de perda que a persegue, e que é parte da entrada do Brasil na condição pós-moderna. A ficção nacional em parte exemplifica a erosão da narrativa latino-americana de identidade nacional, porque ela se torna cada vez mais influenciada pela troca cultural inerente à globalização iniciada nos anos 1990”, concorda a professora de literatura Mary Ginway, da Universidade da Flórida, autora de Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Devir Livraria). Apesar disso, o gênero continua considerado como “menor”. “É uma pena, porque o deslocamento da tradição da ficção para o contexto de um país em desenvolvimento nos permite revelar certas assunções sobre como se dá esse desenvolvimento e determinar a função desse gênero nesse tipo de sociedade. A ficção científica fornece um barômetro para medir atitudes diante da tecnologia, ao mesmo tempo que reflete as implicações sociais da modernização da sociedade brasileira”, avalia Mary. “Há mesmo uma variação gradual de um clima de otimismo para outro, de pessimismo: a ciência parece não mais ser a garantia da verdade, como se pensava, e o impacto da tecnologia pode nem sempre ser positivo, o que dificulta que se alcance o potencial nacional. Tudo isso se pode ver na ficção científica latino-americana: a definição da identidade nacional; as tensões entre ciência e religião e entre campo e cidade; a pseudociência”, nota Rachel.
"

Via Universo Fantástico. Imagem "Invasão de Istambul", por Emrah Elmasli, via Fan-tas-tic

sábado, 18 de junho de 2011

Virando as costas








Eu, particularmente, era da opinião que, em Portugal, o mercado de Ficção Científica fosse mais "sedimentado" que o daqui, do Brasil... Principalmente, em virtude do grande volume de coisas boas e interessantes publicadas por lá (e do qual sabemos de longe, via Internet ou quando esbarramos em livros legais numa livraria de grande porte).

Entretanto, se formos levar em consideração algumas postagens do escritor João Seixas, parece que as coisas não são bem assim... NESTA POSTAGEM (do ano de 2010), ele elenca dez possíveis motivos pelos quais "os leitores portugueses viraram as costas à (literatura de) FC?"




(Imagem: uma colagem que fiz - sem muito cuidado - com capas da Colecção Argonauta, encontradas no google e neste álbum do FLICKR)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Encruzilhadas da Literatura de Gênero Tupiniquim





Primeiro, o verbete Ficção Científica no "Amaldicionário da Literatura Brasileira", bolado por Joca Reiners Terron no blog da Companhia das Letras:

Ficção Científica – Uma literatura onde a presença da ficção de gênero (devemos também incluir o Policial nessa lista de ausentes) é tão inócua só pode ser amaldiçoada.




Em seguida, trecho de um artigo de Xerxenesky, autor de Areia nos Dentes, AQUI:

"O grande escritor chileno Roberto Bolaño, falecido em 2003, comentou, em entrevista para Carmen Boullosa,sobre o assunto “escrever ficção de gênero na América Latina”. A resposta dele é surpreendente e interessante, e acho que podemos aprender muito com o que Bolaño (um admirador da prosa fantástica, ainda que ele não fosse um praticante do gênero) tem a dizer sobre o tema:

“Escritores que cultivaram o gênero fantástico, no sentido mais restrito do termo, temos muito pouco, para não dizer nenhum, entre outras coisas porque o subdesenvolvimento não permite a literatura de gênero. O subdesenvolvimento só permite a obra maior. A obra menor é, na paisagem monótona ou apocalíptica, um luxo inalcançável. Claro, isso não significa que nossa literatura esteja repleta de obras maiores, muito pelo contrário, mas sim que o impulso inicial só permite essas expectativas, que logo a mesma realidade que as propiciou se encarrega de frustrar de diferentes modos.”

Trata-se de uma explicação bastante sociológica. Uma certa pobreza no nosso mercado literário levaria todos os nossos escritores a buscarem ser “o novo Guimarães Rosa”, “a nova Clarice Lispector”, mais do que produzir uma ficção fantástica despretensiosa e divertida. Apesar de todos os exemplos que citei acima de como esse cenário tem aos poucos mudado no Brasil, ouso dizer que a turma da “ficção fantástica” ainda está em minoria."



Depois, uma reflexão produzida por ESTE artigo por Sergio Rodrigues, da Veja.

Trecho:

"...essa mentalidade de vira-lata, ou de adolescente inseguro, não cria um ambiente hostil apenas para a literatura de gênero. A maior parte do campo da dita literatura séria também sofre, pois dominar a velha arte narrativa, ainda que com sofisticação, ainda que propondo novidades sutis de tema ou arquitetura, nunca bastará. Quem precisa de bons artesãos, de bons jogadores? Só o gênio interessa. Daí a presença ridiculamente inflada de ideias como ruptura e revolução na conversa literária. É preciso romper com tudo, isto é, reinventar o jogo, humilhar os adversários. É preciso que um neguinho de 17 anos faça gol dando lençol dentro da área na final."


Por último, ESCLARECIMENTOS do Xerxenesky em seu blog sobre a polêmica produzida por seu artigo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

The Female Man (1975), por Joanna Russ





Este livro pareceu-me bem interessante. Trecho da resenha do blog "Rascunhos":


"The Female Man apresenta-nos quatro versões da mesma mulher em quatro universos paralelos, onde apesar da semelhança genética possuem diferenças físicas e psicológicas resultantes das diferenças sociais provocadas por um rumo distinto dos acontecimentos. Estas diferenças influenciaram a forma como os géneros masculino e feminino se relacionam, e a forma de estar de uma mulher em cada um dos universos: no mundo de Janet já não existem homens, estes morreram de uma praga e as mulheres perpetuam a espécie humana com recurso a engenharia genética; Jeannine vive num mundo que ainda não ultrapassou a Grande Depressão e as mulheres continuam sob a alçada dos homens; na sociedade de Jael os homens e as mulheres separaram-se em duas comunidades guerreiras; Joanna vem dos anos 70 num mundo semelhante ao nosso, onde, ao se assumir como mulher inteligente (ou com cérebro de homem, como será referida) abraça as ideias feministas"

Leia tudo AQUI.

domingo, 12 de junho de 2011

Uma virada internacional?




a)Trecho da coluna de Roberto de Souza Causo no Terra Magazine de 21 de maio:

"Na coluna de 26 de fevereiro deste ano - a respeito da noveleta de Christopher Kastensmidt, "O Encontro Fortuito de van Oost e Oludara", texto finalista do Prêmio Nebula 2010 -, eu já alertava para o fato de que as "indicações deste ano são bastante internacionais, expressando o atual interesse da literatura especulativa por outras culturas e pela sua dimensão global."

Indicações para outros prêmios, e outras discussões dentro da comunidade anglo-americana, sugerem que esse interesse pela dimensão global da ficção científica e da fantasia podem estar configurando uma verdadeira "virada internacional".

É bom observar, antes de mais nada, que já há uns quinze anos que o centro de interesse na ficção científica em inglês parece ser dominada por autores um pouco fora do antigo centro, que era composto de escritores norte-americanos, seja da Golden Age (Asimov, Bradbury, Heinlein, de Camp, Farmer, Pohl, Williamson, Vance, Clement), da New Wave (Ellison, Zelazny, Disch, Wolfe), do feminismo (Le Guin, Rusch), ou do Movimento Cyberpunk (Gibson, Sterling, Rucker, Cadigan).

Esses autores dominantes nos últimos quinze anos seriam britânicos como Neil Gaiman, Stephen Baxter, Paul J. McCauley, Charles Stross, China Miéville, Alastair Reynolds, Ken McLeod, Ian McDonald, Iain Banks, Gwyneth Jones e tantos mais, além de um ou outro australiano como Greg Egan.

Isso não significa, é claro, que os escritores americanos tenham parado de escrever obras significativas, ou que tenham entrado em decadência - nem que esses autores ingleses e australianos sejam inerentemente superiores, mas apenas que o núcleo que eles formam vem rivalizando fortemente com outros centros, demonstrando já um índice de uma maior internacionalização do gênero. "

Para ler tudo clique AQUI.

b)De certa forma, pode-se ler ESTE artigo do Bráulio Tavares como uma confirmação da teoria de Causo

c)Veja também como foi o movimentado (para a Ficção Científica. Aqui no blog, entretanto, dei uma bobeada feia) final de maio em São Paulo, clicando nesta outra coluna de Causo AQUI.

d)Esta imagem não tem muito a ver com o assunto, mas só coloquei porque hoje é Dia dos Namorados... hm... Esqueci que Musky é hermafrodita. Trata-se de Axle Munshine e Musky, personagens do quadrinho/banda desenhada de Ficção Científica Vagabundo dos Limbos, escrita por Christian Godard e ilustrada por Julio Ribera... É publicada desde 1975, mas aqui no Brasil só chegaram algumas edições da Meribérica.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Phillip K. Dick por Crumb





"Esta é a história de Robert Crumb publicada em 1986 na revista Weirdo #17 sobre a experiência mística de Philip K. Dick (1928-1982) retratada no romance "Valis", publicado em Portugal pela Livros do Brasil na coleção Argonauta como "O Mistério de Valis" (sem data) em dois volumes (300 e 301).

A história é uma interpretação gráfica de uma série de eventos que Dick vivenciou no mês de março de 1974. Ele passou o resto de sua vida tentando descobrir o que teria acontecido durante aquele período.

AQUI você encontrará as 8 páginas dessa história. Os arquivos são grandes (300-350Kb em média) para que o texto fique legível e os detalhes visíveis."



(A imagem acima encontrei no google e é de uma história antiga do Crumb, na qual dois alienígenas tentam dar um recado para uns figurões do Pentágono)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

(Da fatalidade do) destino






"Todos nós temos dois passados, mas a um deles chamamos futuro."

O escritor português Afonso Cruz, através da "Enciclopédia da Estória Universal"(2009)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

(A descoberta do) Brasyl





(Uma resenha antiga de Jacques Barcia para o romance Brasyl (2007), de Ian McDonald)

"Vidas paralelas, tempos paralelos, universos paralelos. E um só país. Ou não. Em Brasyl, o escritor escocês irlandês Ian McDonald abre uma janela para três paisagens distintas: uma futurista, reminiscente da tradição cyberpunk; outra contemporânea, um eco dos noticiários e da febre dos reality shows; e, por fim, uma no passado, em uma selva misteriosa e predadora, um mundo independente dentro de uma colônia. Ligando esses três universos tão distantes e, ao mesmo tempo tão próximos, a física quântica, suas possibilidades e suas conseqüências.

O livro conta a história de três personagens separados pelo tempo e pelo espaço. No Rio de Janeiro de 2006, Marcelina Hoffman é uma produtora de TV especializada em reality shows à procura de Barbosa, o goleiro da seleção na fatídica final de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai em pleno Maracanã. Na São Paulo ultra vigiada de 2032, o empresário e malandro Edson Jesus Oliveira de Freitas tem sua vida virada de cabeça para baixo depois que se vê envolvido com uma garota, membro de uma gangue de quantumeiros, físicos que usam computação quântica ilegal para quebrar todo tipo de código. Já na Amazônia de 1732, o padre Jesuíta Luís Quinn caça, em nome da Igreja e da Coroa Portuguesa, um outro padre que estaria criando sua própria teocracia no coração da selva. E em meio a tudo isso, duas conspirações que atravessam a parede entre as realidades: uma tenta manter o segredo do multiverso, enquanto outra tenta escancarar as realidades como único meio de salvá-las.

Mas Brasyl é bem mais que isso. É um livro que faz jus ao título que a Ficção Científica conquistou: a de última representante da literatura de idéias. E justamente por isso, Brasyl não é um livro fácil, muito menos um livro de Ficção Científica convencional.

No livro, McDonald constrói, nas três linhas narrativas, três discussões: a quantidade de vidas que um único indivíduo pode comportar, a quantidade de paisagens e sociedades que um país pode ter e, finalmente, o número de mundos diferentes cabem no universo. É um passeio, do micro ao macrocosmo, sobre a natureza da identidade. É um livro sobre filosofia, física e a natureza da realidade. Sobre escolhas, segredos e máscaras. É um livro sobre um país que nunca foi e talvez nunca será. Sobre realidades paralelas, mas focado nas suas semelhanças, não nas diferenças."

(Para ler a resenha completa, clique AQUI. )




Vale também dar uma olhada na "bronca" que Fabio Fernandes deu aos Escritores brasileiros depois de ler Brasyl: "Quem não faz, leva" (artigo também de 2007) - AQUI - Trecho a seguir:

"O livro se passa nas ruas de Copacabana, dentro de emissoras de TV (as referências a jornais, canais de TV e outros detalhes de cor local são nota 9,5 – um errinho de ortografia aqui e ali, mas tudo bem), nas raves de Sampa, nos morros cariocas e no Norte-Nordeste do Brasil-Colônia. O livro é daqueles que fazem a gente ficar pensando: se um escocês conseguiu escrever sobre isso, por que diabos um brasileiro não escreveu isso ainda?

Também não sejamos espíritos-de-porco. Já dizia Tom Jobim que o brasileiro tem inveja do sucesso alheio. Desse mal não sofro: Ian McDonald é um tremendo escritor, quase do tipo que eu gostaria de ser quando crescer. Provas para decidir no tapetão? Livros como a excelente novela cyberpunk “Scissors Cut Paper Wrap Stone”, ou a série “Chaga”, ambientada na África. McDonald gosta de escrever sobre o Outro, sobre aquilo que está fora de seu território original de experiência. E não é disso que a ficção científica trata ou deveria tratar?

E também não sejamos injustos: se existiu no Brasil um livro relacionado à ficção científica que conseguisse falar de Brasil sem resvalar no folclórico ou no exótico (embora seja rico em sátira), esse livro é o esgotado mas nunca esquecido “Santa Clara Poltergeist”, de Fausto Fawcett. Tirando Santa Clara, e mais um punhado que pode ser contado numa das mãos de alguém que perdeu uns dedos com rojão de festa junina, não existe um livro de ficção científica brasileiro que trate de Brasil com brasilidade."

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Escritores de Outro Mundo


(Por Felipe Moraes, no Correio Brasiliense. Via Lenda Urbana)

sábado, 9 de abril de 2011

Come with us






Come with us
And leave your Earth behind
Bright and clear
We see the light
Our universe is at your side
Please lead us to other suns more bright
Behold
They're coming back
Behold
They're coming back
They're coming back
They're coming back
They're coming back
They're coming back
Come with us...



(Música animal do Chemical Brothers... Tem ESTA também.
Imagem: Capas das coleção de Ficção Científica da Penguin)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Questões Literárias


Trecho inicial da coluna de Roberto de Sousa Causo em 20 de março de 2011 no Terra Magazine (Versão integral AQUI):



"
O mundo da literatura é composto de vários aspectos: hábitos de leitura (a esfera individual), mercado literário (a esfera profissional), crítica e teoria (parcialmente, a esfera acadêmica), e as Questões Literárias.

As Questões Literárias compreendem as esferas do escritor e também do crítico, mas costumam se envolver com todos os outros aspectos. Questões Literárias impulsionam movimentos e escolas literárias, e se manifestam das disputas de um grupo em relação a outros, nas discussões sobre os caminhos da literatura e nas tentativas de questioná-la ou renová-la.

De vez em quando surge uma Grande Questão Literária que tem o potencial de mudar as coisas, arrastando todas as esferas com ela - obrigando a crítica e a teoria a se posicionarem, balançando o mercado literário e mudando os hábitos de leitura. Aquelas questões que vieram no bojo do movimento modernista brasileiro, por exemplo, foram um desses maremotos literários que mudam tudo, no seu rastro.

A história da ficção científica no Brasil também registra as suas Questões Literárias. A primeira provavelmente foi o debate sobre a legitimidade do gênero, entre 1957 até meados da década de 1970, um debate conduzido nas páginas dos prestigiosos cadernos de cultura da época, especialmente o "Suplemento Literário" do O Estado de S. Paulo. Envolveu figuras de importância na cena literária da época, como Mário da Silva Brito, Antonio Olinto, João Camilo de Oliveira Torres, Laís Corrêa de Araújo e André Carneiro a favor dessa legitimidade, e Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins, Alcântara Silveira e Muniz Sodré, contra. Essa foi, pode-se dizer, a principal Questão Literária característica da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1958-1972).

A principal Questão Literária da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (iniciada em 1982) foi a necessidade (ou não) de se renovar a FC nacional pela promoção da sua brasilidade, tanto temática, quanto no seu diálogo com a tradição literária modernista, e na rejeição dos clichês e fórmulas da FC anglo-americana. O escritor paulista Ivan Carlos Regina, e o seu "Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira", esteve no centro dessa questão, que gerou um pequeno debate no seio do fandom, em reuniões de fãs e nas páginas de fanzines como Somnium, Megalon e Papêra Uirandê. (O manifesto foi recentemente disponibilizado no É só Outro Blogue, de Tibor Moricz). Veja também, no mesmo blog, uma entrevista com Regina.

Finalmente, em abril de 2009, o escritor Luiz Bras lançou - com o ensaio "Convite ao Mainstream", na coluna "Ruído Branco", mantida por ele no Rascunho: O Jornal Literário do Brasil - uma Questão Literária das mais relevantes para a história do gênero em nosso país. Talvez até mesmo para a literatura braseira como um todo. "






Para ler "Convite ao Mainstream", de Luiz Bras clique AQUI. Para ler as repercussões e comentários de outros autores relacionados à ficção científica, leia AQUI e depois AQUI.

O artigo "Convite ao Mainstream" - dentre outros - foi publicado em papel pela Editora Terracota no livro "Muitas Peles".


(imagem via Popolic)


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