Projeto Portal foi uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa durante os anos de 2008 e 2010. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — foi distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Seis números (de papel e tinta, não online). O título de cada revista homenageou uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.


Idealização: Nelson de Oliveira | Projeto gráfico e diagramação: Teo Adorno
Revisão: Mirtes Leal e Ivan Hegenberg | Impressão: LGE Editora

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domingo, 28 de outubro de 2012

Colecção Argonauta






(Capa de "O Mundo dos Draags" de Stefan Wul, que originou "O Planeta Selvagem" ou "O Planeta Fantástico" de René Laloux)




O blog da "Colecção Argonauta" pretende ser "... uma homenagem (...), um memorial que esperamos possa contribuir para esclarecer possíveis dúvidas relativas aos números publicados, bem como constituir um espaço de partilha, onde comentários relativos às obras possam ajudar a enriquecer o vasto universo de memórias aqui reunido."

Segundo o Wikipedia, a Colecção Argonauta foi publicada de 1954 até 2006 com 563 edições de bolso, repleta de figurinhas e figurões (Aldiss, Heinlein, Bradbury, Asimov, Farmer, Clarke, Herbert, Dick, Le Guin, Ballard, Capek). Parece piada, mas apesar de ser publicada por uma editora chamada "Livros do Brasil", a venda dos livros era "interdita na República Federativa do Brasil".  Proibida ou não, parte da coleção chegou ao país, conforme vemos neste artigo - já um tanto antigo (2006) - de Roberto de Sousa Causo para a Terra Magazine, "A Leitura faz o Leitor" que reproduzo (copio/colo) aqui embaixo.

"
Quando comecei a participar da comunidade brasileira de ficção científica, lá por 1983, foi difícil para mim entender o fascínio que a Coleção Argonauta exercia sobre os outros fãs - especialmente os mais velhos, reunidos em torno do Clube de Leitores de Ficção Científica.

Eu pouco ouvira falar da coleção - afinal, cresci lendo a FC encontrada na série alemã Perry Rhodan, nos livros de FC da Hemus, na coleção Mundos da Ficção Científica, e nos livros de FC publicados pela Bolsilivros que eu podia encontrar em bancas de revista na cidade interiorana em que vivia.

De fato, só passei a compreender o encanto que a Argonauta exercia sobre os fãs mais velhos a partir do instante em que me voltei para o meu próprio fascínio por Perry Rhodan e pela Mundos da Ficção Científica, e percebi que cada geração tem a sua coleção ou as suas coleções formadoras.

Isso acontece porque, em geral, o fã de FC é alguém que retorna seguidamente ao seu interesse pelo gênero e nisso, ele precisa ser alimentado de alguma maneira. Nos Estados Unidos, tal papel por muito tempo coube às revistas especializadas. Ainda hoje elas são o celeiro dos melhores autores e dos fãs mais fiéis. Já em outras partes do mundo - especialmente no mundo de fala portuguesa ¿ o papel muitas vezes cabe às coleções.

A Argonauta, da Livros do Brasil (Portugal), certamente se salienta nessa tarefa de gerar e manter os fãs do gênero por sua antigüidade, periodicidade e pelo preço em geral acessível. Houve um tempo em que seus livros chegavam a uma boa parcela das livrarias brasileiras, e até mesmo a algumas bancas de revista, se não estou enganado.

No final da década de 1980, eles começaram a escassear e, durante os anos noventa se concentraram em umas poucas livrarias que ainda buscam permitir que os leitores brasileiros mantenham contato com o mundo editorial português. Em uma delas, a saudosa Livraria Paisagem, o Clube de Leitores de Ficção Científica realizou suas reuniões mensais por muitos anos. Outra é a Themus Livros, também de São Paulo.
O CLFC, aliás, também nasceu associado ao fenômeno dessa coleção ¿ em 1985 o fã R. C. Nascimento publicou em edição do autor o livro Quem É Quem na Ficção Científica Volume I: A Coleção Argonauta, com a famosa ficha de inscrição na última página, pedindo que outros fãs lhe escrevessem para montar o que ele chamou de "Clube de Leitores de Ficção Científica".

Nascimento escolheu bem a plataforma para o seu gesto de comunicação com outros fãs - aparentemente a Argonauta já despertava paixões entre pessoas que não se conheciam, e que se sentiram entusiasmadas com a descoberta de outros "semelhantes".

E assim foi que a Coleção Argonauta se tornou o componente de uma subcultura nacional que, por suas origens, comunica-se com uma vasta subcultura global formada por fãs de FC e fantasia em todas as partes do mundo.

Não sei se o apelo da coleção é tão forte em seu país de origem quanto o é entre nós, pois Portugal teve e tem várias coleções de importância e prestígio, algumas mais conhecidas dos fãs mais jovens, como a Ficção Científica Europa-América, e a Caminho Ficção Científica; esta última, agora cancelada, foi por um bom tempo o refúgio derradeiro do autor de FC em língua portuguesa, em ambos os lados do Atlântico, pela atuação do editor António Belmiro Guimarães.

Voltando à tese destas linhas, cada geração de fãs possui em coleções distintas os seus formadores, os motivadores daquela chama insubstancial e de difícil definição, que faz o fã de FC.

A Argonauta certamente formou a geração mais nobre do fandom brasileiro - fãs empreendedores como o próprio Nascimento, que, ao fundar o CLFC, criou uma pequena revolução; seu parceiro nos anos iniciais, Ivan Carlos Regina; e outros que se alternaram na direção do clube, incluindo Luiz Marcos da Fonseca e Humberto Fimiani.

Mas o que isso significa?

Em parte, a certeza de que os escritores publicados na Argonauta detém um lugar especial no coração desses fãs. Autores como Clifford D. Simak, Robert A. Heinlein, A. E. van Vogt, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Philip José Farmer, Ursula K. Le Guin, Robert Silverberg, Frederik Pohl, Philip K. Dick e mais um monte de autores franceses, provavelmente conhecidos apenas dos leitores da Argonauta. Nesse mesmo sentido, significa que o tipo de FC encontrada na coleção tem igualmente um lugar especial no coração desses fãs. A coleção se tornou um lar para todos eles.

Talvez aqueles que, como eu, devem algo a Perry Rhodan, FC Hemus, e à Mundos da Ficção Científica, tenham outros autores e uma outra ficção científica em mente - embora muitos deles tenham aparecido também na Argonauta.

Mas não acho que isso cause um, digamos, "abismo" entre gerações de fãs brasileiros. O que parece ser o problema maior passa longe dessa consideração. Ao contrário, ele se refere justamente ao fim das coleções no Brasil, e a dificuldade das coleções portuguesas em serem distribuídas e lidas aqui. Sem um lar, sem um abrigo, como podem os novos leitores, os novos fãs, surgirem?

Minha suspeita é de que não podem. A ponte fica incompleta, então. Aqueles fãs que já estão por aí há algum tempo cada vez mais recorrem aos livros em inglês, mas eles já passaram pelo seu período formador lendo alguma coisa em português, a Argonauta provavelmente.

O futuro da comunidade brasileira de FC se torna uma incógnita. Haverá uma nova geração, e formada através do quê? Do cinema, que parece ter destruído a FC nesse meio, justo agora que as imagens geradas por computador prometem um realismo nunca antes alcançado pelo gênero - e níveis de imbecilidade também nunca alcançados, nem mesmo na infantil FC da década de 1950? Serão os novos fãs garimpeiros de sebo, revirando o passado editorial brasileiro e português, em busca do que os inspire?

Resta torcer para que surja uma outra coleção, como aquela prometida este ano pela Devir, de São Paulo."


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Gethen






"
A ficção científica costuma ser descrita, até mesmo definida, como extrapolação. Espera-se que o escritor de ficção científica pegue uma tendência ou um fenômeno do presente, purifique-o e intensifique-o para efeito dramático e estenda-o para o futuro. “Se isto continuar, eis o que acontecerá.” Faz-se uma previsão. O método e o resultado assemelha-se aos do cientista que alimenta ratos com grandes doses de suplementos purificados e concentrados, a fim de prever o que pode acontecer às pessoas que comem aquilo em pequenas doses e por um longo período. O resultado parece ser quase sempre câncer. Assim ocorre com o resultado da extrapolação. Obras de ficção científica de estrita extrapolação chegam mais ou menos onde chega o Clube de Roma: em algum ponto entre a extinção gradual da liberdade e a extinção total da vida na Terra.

Isto talvez explique por que muitas pessoas, que não lêem ficção científica, a descrevam como “escapismo”, mas, quando questionadas mais a fundo, admitem que não lêem ficção científica porque é “muito deprimente”.

Qualquer coisa levada a seu extremo torna-se deprimente, quando não cancerígena.

Felizmente, embora a extrapolação seja um elemento da ficção científica seja um elemento da ficção científica, não se trata, de forma alguma, de sua essência. A extrapolação é racional e simplista demais pra satisfazer a mente criativa, seja a do leitor ou a do escritor. Equilíbrio é o tempero da vida.

(...)"


Trecho da Introdução de Ursula Le Guin em "A Mão Esquerda da Escuridão"




Imagem:
Mapas do Planeta Gethen/Inverno


Via Wikipedia, Fonte AQUI

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Os melhores romances da FC brasileira




"Há algumas semanas, conversando com meu colega de Anuário, Marcello Branco, discutimos a respeito dos melhores romances da ficção científica brasileira. Esta é uma daquelas discussões difíceis, porque passa por muitas definições nem sempre possíveis, especialmente em se tratando de ficção científica, além da definição de romance que, no Brasil, tem a ver com a forma narrativa e, nos EUA, com o tamanho físico do texto.
Como eu me importo muito pouco essas definições, vou fazer aqui um levantamento do que, na minha opinião, está entre o melhor que os autores brasileiros de ficção fantástica já produziram."



Postagem em duas partes no "Mensagens do Hiperespaço" AQUI e AQUI.



Imagem fonte AQUI

sexta-feira, 22 de julho de 2011

The Integral Trees



Esta ilustração de Michael Wheelan foi feita para o livro "Integral Trees" (1983), de Larry Niven.


Sobre o cenário do romance, roubei e traduzi de forma precária o verbete do Wikipedia:

"A história se desenvolve na estrela de nêutrons Levoy (abreviada como Voy). O planeta Mundo de Goldblatt (abreviado Gold), um gigante gasoso ao estilo de Júpiter, orbita esta estrela no limite de Roche. A gravidade do planeta é insuficiente para segurar sua atmosfera que é sugada para uma órbita independente ao redor da estrela, formando um anel atmosférico ao redor da estrela, chamado Gas Torus. O anel é gigantesco, um milhão de quilômetros de espessura, e a maior parte dele é tênue demais para ser habitável. Entretanto, o miolo do anel é denso o suficiente para sustentar vida. Esta parte central do Gas Torus é conhecido como Anel de Fumaça e abriga uma ampla variedade de vida.

Não existe "chão" no Anel de Fumaça; é um mundo que consiste apenas de céu. A maioria dos animais voa, inclusive peixes. Não existe em cima ou embaixo. A maioria dos animais tem simetria trilateral, permitindo a visão em todas as direções.

A maioria das plantas do Anel de Fumaça são muito frágeis, já que elas não tem como suportar o próprio peso (Entendi direito?). Uma notável exceção é a colossal Árvore Integral (Integral Trees). Elas têm mais de 100 quilômetros de comprimento."

Leia todo o verbete AQUI.

Acho que nunca foi traduzido ou publicado em português. Se eu descobrir algo diferente disso, edito o post.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Rendezvous with Rama

Uma música.



Rendezvous with Rama, por Yojimbo Billions.

* * *

A Aleph acabou de lançar o Encontro com Rama, de Arthur C.Clarke.

Sinopse (via o site da editora):

Encontro com Rama conta a história de uma terrível colisão de um meteorito contra o continente europeu. Após o acontecimento, líderes mundiais e cientistas reuniram esforços para evitar que catástrofes dessa natureza voltassem a acontecer. Quase cinquenta anos depois, a humanidade atônita acompanha a chegada de um novo astro ao Sistema Solar. De proporções inimagináveis, Rama espanta e ameaça, pois avança firmemente na direção de nosso Sol. Uma expedição é enviada para explorar os mistérios do que se imagina ser um colossal meteoro.

segunda-feira, 18 de julho de 2011





"A bad book hurts science fiction more than ten bad notices"
Damon Knight



Via Blade Runner, de João Seixas.

domingo, 17 de julho de 2011

O Futuro do Presente no Pretérito, de Carlos Haag





Na Revista FAPESP, um artigo de Carlos Haag conta a história da Ficção Científica no Brasil.

Abaixo um trecho:


Desde o século XIX o gênero provou ser um veículo ideal para registrar tensões na definição da identidade nacional e do processo de modernização. Essas tensões são exacerbadas na América Latina e, por isso, a produção da ficção em países como Brasil, Argentina e México, grandes representantes desse gênero no continente, é muito mais politizada do que a escrita nos países do Norte. No Brasil, o gênero ajudou a refletir uma agenda política mais concreta e os escritores, ontem e hoje, estão mais intimamente envolvidos com os rumos futuros de seu país e usaram o gênero nascente não apenas para circular suas idéias na arena pública, mas também para mostrar aos seus compatriotas suas opiniões sobre a realidade presente e suas visões sobre um tempo futuro, melhor e mais moderno”, explica a historiadora Rachel Haywood Ferreira, da Universidade do Estado de Iowa, autora de The emergence of Latin American science fiction, que acaba de ser lançado nos EUA pela Wesleyan University Press. “A ficção científica brasileira permite traçar a crise de identidade que acompanhou a modernização, juntamente com o senso de perda que a persegue, e que é parte da entrada do Brasil na condição pós-moderna. A ficção nacional em parte exemplifica a erosão da narrativa latino-americana de identidade nacional, porque ela se torna cada vez mais influenciada pela troca cultural inerente à globalização iniciada nos anos 1990”, concorda a professora de literatura Mary Ginway, da Universidade da Flórida, autora de Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Devir Livraria). Apesar disso, o gênero continua considerado como “menor”. “É uma pena, porque o deslocamento da tradição da ficção para o contexto de um país em desenvolvimento nos permite revelar certas assunções sobre como se dá esse desenvolvimento e determinar a função desse gênero nesse tipo de sociedade. A ficção científica fornece um barômetro para medir atitudes diante da tecnologia, ao mesmo tempo que reflete as implicações sociais da modernização da sociedade brasileira”, avalia Mary. “Há mesmo uma variação gradual de um clima de otimismo para outro, de pessimismo: a ciência parece não mais ser a garantia da verdade, como se pensava, e o impacto da tecnologia pode nem sempre ser positivo, o que dificulta que se alcance o potencial nacional. Tudo isso se pode ver na ficção científica latino-americana: a definição da identidade nacional; as tensões entre ciência e religião e entre campo e cidade; a pseudociência”, nota Rachel.
"

Via Universo Fantástico. Imagem "Invasão de Istambul", por Emrah Elmasli, via Fan-tas-tic

sábado, 18 de junho de 2011

Virando as costas








Eu, particularmente, era da opinião que, em Portugal, o mercado de Ficção Científica fosse mais "sedimentado" que o daqui, do Brasil... Principalmente, em virtude do grande volume de coisas boas e interessantes publicadas por lá (e do qual sabemos de longe, via Internet ou quando esbarramos em livros legais numa livraria de grande porte).

Entretanto, se formos levar em consideração algumas postagens do escritor João Seixas, parece que as coisas não são bem assim... NESTA POSTAGEM (do ano de 2010), ele elenca dez possíveis motivos pelos quais "os leitores portugueses viraram as costas à (literatura de) FC?"




(Imagem: uma colagem que fiz - sem muito cuidado - com capas da Colecção Argonauta, encontradas no google e neste álbum do FLICKR)

domingo, 12 de junho de 2011

Uma virada internacional?




a)Trecho da coluna de Roberto de Souza Causo no Terra Magazine de 21 de maio:

"Na coluna de 26 de fevereiro deste ano - a respeito da noveleta de Christopher Kastensmidt, "O Encontro Fortuito de van Oost e Oludara", texto finalista do Prêmio Nebula 2010 -, eu já alertava para o fato de que as "indicações deste ano são bastante internacionais, expressando o atual interesse da literatura especulativa por outras culturas e pela sua dimensão global."

Indicações para outros prêmios, e outras discussões dentro da comunidade anglo-americana, sugerem que esse interesse pela dimensão global da ficção científica e da fantasia podem estar configurando uma verdadeira "virada internacional".

É bom observar, antes de mais nada, que já há uns quinze anos que o centro de interesse na ficção científica em inglês parece ser dominada por autores um pouco fora do antigo centro, que era composto de escritores norte-americanos, seja da Golden Age (Asimov, Bradbury, Heinlein, de Camp, Farmer, Pohl, Williamson, Vance, Clement), da New Wave (Ellison, Zelazny, Disch, Wolfe), do feminismo (Le Guin, Rusch), ou do Movimento Cyberpunk (Gibson, Sterling, Rucker, Cadigan).

Esses autores dominantes nos últimos quinze anos seriam britânicos como Neil Gaiman, Stephen Baxter, Paul J. McCauley, Charles Stross, China Miéville, Alastair Reynolds, Ken McLeod, Ian McDonald, Iain Banks, Gwyneth Jones e tantos mais, além de um ou outro australiano como Greg Egan.

Isso não significa, é claro, que os escritores americanos tenham parado de escrever obras significativas, ou que tenham entrado em decadência - nem que esses autores ingleses e australianos sejam inerentemente superiores, mas apenas que o núcleo que eles formam vem rivalizando fortemente com outros centros, demonstrando já um índice de uma maior internacionalização do gênero. "

Para ler tudo clique AQUI.

b)De certa forma, pode-se ler ESTE artigo do Bráulio Tavares como uma confirmação da teoria de Causo

c)Veja também como foi o movimentado (para a Ficção Científica. Aqui no blog, entretanto, dei uma bobeada feia) final de maio em São Paulo, clicando nesta outra coluna de Causo AQUI.

d)Esta imagem não tem muito a ver com o assunto, mas só coloquei porque hoje é Dia dos Namorados... hm... Esqueci que Musky é hermafrodita. Trata-se de Axle Munshine e Musky, personagens do quadrinho/banda desenhada de Ficção Científica Vagabundo dos Limbos, escrita por Christian Godard e ilustrada por Julio Ribera... É publicada desde 1975, mas aqui no Brasil só chegaram algumas edições da Meribérica.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Weird Science Fantasy (1954)


Publicado em Weird Science Fantast nº 24. Dois sujeitos abduzidos para um planeta de "sonho". Clique na imagem para história completa, em inglês. Via Pappy´s Golden Age. Wally Wood suicidou-se em 1981.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

(Da fatalidade do) destino






"Todos nós temos dois passados, mas a um deles chamamos futuro."

O escritor português Afonso Cruz, através da "Enciclopédia da Estória Universal"(2009)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

(A descoberta do) Brasyl





(Uma resenha antiga de Jacques Barcia para o romance Brasyl (2007), de Ian McDonald)

"Vidas paralelas, tempos paralelos, universos paralelos. E um só país. Ou não. Em Brasyl, o escritor escocês irlandês Ian McDonald abre uma janela para três paisagens distintas: uma futurista, reminiscente da tradição cyberpunk; outra contemporânea, um eco dos noticiários e da febre dos reality shows; e, por fim, uma no passado, em uma selva misteriosa e predadora, um mundo independente dentro de uma colônia. Ligando esses três universos tão distantes e, ao mesmo tempo tão próximos, a física quântica, suas possibilidades e suas conseqüências.

O livro conta a história de três personagens separados pelo tempo e pelo espaço. No Rio de Janeiro de 2006, Marcelina Hoffman é uma produtora de TV especializada em reality shows à procura de Barbosa, o goleiro da seleção na fatídica final de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai em pleno Maracanã. Na São Paulo ultra vigiada de 2032, o empresário e malandro Edson Jesus Oliveira de Freitas tem sua vida virada de cabeça para baixo depois que se vê envolvido com uma garota, membro de uma gangue de quantumeiros, físicos que usam computação quântica ilegal para quebrar todo tipo de código. Já na Amazônia de 1732, o padre Jesuíta Luís Quinn caça, em nome da Igreja e da Coroa Portuguesa, um outro padre que estaria criando sua própria teocracia no coração da selva. E em meio a tudo isso, duas conspirações que atravessam a parede entre as realidades: uma tenta manter o segredo do multiverso, enquanto outra tenta escancarar as realidades como único meio de salvá-las.

Mas Brasyl é bem mais que isso. É um livro que faz jus ao título que a Ficção Científica conquistou: a de última representante da literatura de idéias. E justamente por isso, Brasyl não é um livro fácil, muito menos um livro de Ficção Científica convencional.

No livro, McDonald constrói, nas três linhas narrativas, três discussões: a quantidade de vidas que um único indivíduo pode comportar, a quantidade de paisagens e sociedades que um país pode ter e, finalmente, o número de mundos diferentes cabem no universo. É um passeio, do micro ao macrocosmo, sobre a natureza da identidade. É um livro sobre filosofia, física e a natureza da realidade. Sobre escolhas, segredos e máscaras. É um livro sobre um país que nunca foi e talvez nunca será. Sobre realidades paralelas, mas focado nas suas semelhanças, não nas diferenças."

(Para ler a resenha completa, clique AQUI. )




Vale também dar uma olhada na "bronca" que Fabio Fernandes deu aos Escritores brasileiros depois de ler Brasyl: "Quem não faz, leva" (artigo também de 2007) - AQUI - Trecho a seguir:

"O livro se passa nas ruas de Copacabana, dentro de emissoras de TV (as referências a jornais, canais de TV e outros detalhes de cor local são nota 9,5 – um errinho de ortografia aqui e ali, mas tudo bem), nas raves de Sampa, nos morros cariocas e no Norte-Nordeste do Brasil-Colônia. O livro é daqueles que fazem a gente ficar pensando: se um escocês conseguiu escrever sobre isso, por que diabos um brasileiro não escreveu isso ainda?

Também não sejamos espíritos-de-porco. Já dizia Tom Jobim que o brasileiro tem inveja do sucesso alheio. Desse mal não sofro: Ian McDonald é um tremendo escritor, quase do tipo que eu gostaria de ser quando crescer. Provas para decidir no tapetão? Livros como a excelente novela cyberpunk “Scissors Cut Paper Wrap Stone”, ou a série “Chaga”, ambientada na África. McDonald gosta de escrever sobre o Outro, sobre aquilo que está fora de seu território original de experiência. E não é disso que a ficção científica trata ou deveria tratar?

E também não sejamos injustos: se existiu no Brasil um livro relacionado à ficção científica que conseguisse falar de Brasil sem resvalar no folclórico ou no exótico (embora seja rico em sátira), esse livro é o esgotado mas nunca esquecido “Santa Clara Poltergeist”, de Fausto Fawcett. Tirando Santa Clara, e mais um punhado que pode ser contado numa das mãos de alguém que perdeu uns dedos com rojão de festa junina, não existe um livro de ficção científica brasileiro que trate de Brasil com brasilidade."

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Escritores de Outro Mundo


(Por Felipe Moraes, no Correio Brasiliense. Via Lenda Urbana)

sábado, 9 de abril de 2011

Come with us






Come with us
And leave your Earth behind
Bright and clear
We see the light
Our universe is at your side
Please lead us to other suns more bright
Behold
They're coming back
Behold
They're coming back
They're coming back
They're coming back
They're coming back
They're coming back
Come with us...



(Música animal do Chemical Brothers... Tem ESTA também.
Imagem: Capas das coleção de Ficção Científica da Penguin)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Questões Literárias


Trecho inicial da coluna de Roberto de Sousa Causo em 20 de março de 2011 no Terra Magazine (Versão integral AQUI):



"
O mundo da literatura é composto de vários aspectos: hábitos de leitura (a esfera individual), mercado literário (a esfera profissional), crítica e teoria (parcialmente, a esfera acadêmica), e as Questões Literárias.

As Questões Literárias compreendem as esferas do escritor e também do crítico, mas costumam se envolver com todos os outros aspectos. Questões Literárias impulsionam movimentos e escolas literárias, e se manifestam das disputas de um grupo em relação a outros, nas discussões sobre os caminhos da literatura e nas tentativas de questioná-la ou renová-la.

De vez em quando surge uma Grande Questão Literária que tem o potencial de mudar as coisas, arrastando todas as esferas com ela - obrigando a crítica e a teoria a se posicionarem, balançando o mercado literário e mudando os hábitos de leitura. Aquelas questões que vieram no bojo do movimento modernista brasileiro, por exemplo, foram um desses maremotos literários que mudam tudo, no seu rastro.

A história da ficção científica no Brasil também registra as suas Questões Literárias. A primeira provavelmente foi o debate sobre a legitimidade do gênero, entre 1957 até meados da década de 1970, um debate conduzido nas páginas dos prestigiosos cadernos de cultura da época, especialmente o "Suplemento Literário" do O Estado de S. Paulo. Envolveu figuras de importância na cena literária da época, como Mário da Silva Brito, Antonio Olinto, João Camilo de Oliveira Torres, Laís Corrêa de Araújo e André Carneiro a favor dessa legitimidade, e Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins, Alcântara Silveira e Muniz Sodré, contra. Essa foi, pode-se dizer, a principal Questão Literária característica da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1958-1972).

A principal Questão Literária da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (iniciada em 1982) foi a necessidade (ou não) de se renovar a FC nacional pela promoção da sua brasilidade, tanto temática, quanto no seu diálogo com a tradição literária modernista, e na rejeição dos clichês e fórmulas da FC anglo-americana. O escritor paulista Ivan Carlos Regina, e o seu "Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira", esteve no centro dessa questão, que gerou um pequeno debate no seio do fandom, em reuniões de fãs e nas páginas de fanzines como Somnium, Megalon e Papêra Uirandê. (O manifesto foi recentemente disponibilizado no É só Outro Blogue, de Tibor Moricz). Veja também, no mesmo blog, uma entrevista com Regina.

Finalmente, em abril de 2009, o escritor Luiz Bras lançou - com o ensaio "Convite ao Mainstream", na coluna "Ruído Branco", mantida por ele no Rascunho: O Jornal Literário do Brasil - uma Questão Literária das mais relevantes para a história do gênero em nosso país. Talvez até mesmo para a literatura braseira como um todo. "






Para ler "Convite ao Mainstream", de Luiz Bras clique AQUI. Para ler as repercussões e comentários de outros autores relacionados à ficção científica, leia AQUI e depois AQUI.

O artigo "Convite ao Mainstream" - dentre outros - foi publicado em papel pela Editora Terracota no livro "Muitas Peles".


(imagem via Popolic)

sábado, 2 de abril de 2011

Syd Mead

terça-feira, 29 de março de 2011

Fundação




Uma resenha para o livro Fundação, escrita por Ronaldo Bressane para o Estadão em 2009:

"
É inquietante voltar a um livro que você leu há 25 anos. Ainda mais se tratando de um livro de ficção científica – sem falar no dado importante de que, quando foi lido pela primeira vez, o leitor tinha 13 anos. Uma verdadeira viagem no tempo: retorna-se ao futuro para tentar se lembrar de como era no passado, ao mesmo tempo em que tenta lembrar de como era, neste passado, sua visão de futuro.

Desculpas ao leitor pela viagem temporal, mas a digressão é necessária para avaliar um romance como Fundação (Aleph, 238 páginas), de Isaac Asimov, primeiro exemplar da trilogia que prossegue em Fundação e Império e Segunda Fundação.

Ficção científica é mais ou menos como heavy metal. Você gosta daquilo por um tempo, daí cresce, e começa a achar coisa de adolescente. Tanto é que ambos os gêneros não são muito levados a sério dentro de suas disciplinas – a literatura de imaginação e o rock’n’roll. Tanto faz: seus obcecados fãs também se encarregam de separar esses gêneros do resto do universo, o que contribui para lançá-los na vala comum do preconceito. Por essa chave, a obra de Isaac Asimov seria algo assim como uma mistura de todos os álbuns de Mötorhead, Black Sabbath e Iron Maiden.

O finado escritor russo/norte-americano é uma lenda: ajudou a consolidar o gênero, criou alguns de seus maiores clássicos (a trilogia Fundação e Eu, Robô entre eles), estabeleceu regras e uma gramática próprias, conquistou fãs de diversas gerações e ainda foi um dos mais prolíficos autores na área – e também em outras: entre seus mais de 500 livros, há histórias de mistério, enciclopédias, volumes de divulgação científica e até poesia. No espectro clássico da ficção-científica anglo-saxã, somente Arthur C. Clarke e Ray Bradbury lhe fariam companhia.

Essa produção toda talvez seja a culpada por algo que o leitor de 38 dá mais atenção que o de 13: a linguagem. Embora muito bem traduzida por Fábio Fernandes, especialista no gênero no Brasil, a paisagem verbal asimoviana é pobre e freqüentemente adensada por um palavrório científico. Os grandes vôos da ficção-científica nesse território ficam por conta de Douglas Adams (O mochileiro das galáxias) e Philip K Dick (O homem-duplo), escritores sessentistas que temperaram o gênero com psicodelia, sarcasmo e cultura pop. Asimov privilegia a objetividade da ação, o desenho rápido na descrição, o tom ligeiro na psicologia das personagens.

O forte do homem é a solidez na estruturação de tramas e a ousadia na concepção: ele baseia seu livro em grandes acordes, em ritmo bem marcado. E na trilogia da Fundação é onde Asimov foi mais longe. Se o leitor de 13 viajava nos saltos pelo hiperespaço, o que intriga o leitor de 38 são as analogias políticas, os mergulhos na filosofia e as observações socioeconômicas.
"



Leia tudo AQUI, no Impostor.

domingo, 27 de março de 2011

Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira




O Tibor Moricz vem resgatando a história da Ficção Científica Brasileira em seu blog. Como ele postou por lá:

"Pretendo dar uma turbinada no meu blog, propondo um espaço diferente, dedicado à nossa FC&F. Biografias e entrevistas nos moldes tradicionais, apresentando ao fandom contemporâneo aqueles que ajudaram a construir as bases da nossa literatura de gênero.

Já li e escutei várias vezes que o que passou, passou. O que importa é o agora e o amanhã, em projeções futurísticas geralmente ególatras. Já li gente dizendo que nunca leu esse e aquele autor do passado e que não tem interesse nenhum em fazê-lo. Que esse e aquele trabalho de antigamente nada ou quase nada pode acrescentar ao que fazemos hoje.

Fico horrorizado quando leio e escuto coisas assim. Trata-se de flagrante desrespeito ao nosso gênero literário. Um comportamento desprezível. A literatura está acima de opiniões equivocadas como essas."







Seguindo este espírito, Tibor publicou o Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, escrito por Ivan Carlos Regina e publicado em 1988. Vá ao blogue de Tibor e leia os comentários.

O Manifesto vem a seguir:


"
MANIFESTO ANTROPOFÁGICO

DA FICÇÃO CIENTÍFICA

BRASILEIRA



MOVIMENTO SUPERNOVA

O homem foi até as estrelas para se encontrar e só achou o vazio, vazio, vazio.

Descobriu que no interior de todos os sóis se esconde a noite, e com ela sua inimiga ancestral, a escuridão.

São seus companheiros de viagem a morte, a dor, o riso, o sexo, a miséria, a alegria, o amor, o tédio, a solidão, a desesperança, o cansaço e a preguiça.

No cruzar da existência uma pirâmide de objetos inúteis: um forno de microondas, uma garrafa plástica, um quilo de éter, uma blusa de náilon, uma lâmina de barbear. Objetos do dia a dia.

Não propomos a dialética do povo mas a estética do novo.

O homem odeia o deus e ama o robô. Seu destino é destruir a perfeição e criar a aberração.

O totem foi a primeira máquina do homem.

Queremos ser uma explosão da forma e uma revolução do conteúdo. A supernova no céu do convencional.

A alegria e a prova dos nove.

A tecnologia e, em ultima instância, a tentativa neurótica do homem em substituir todos os seus componentes humanos por artificiais, criando um mundo onde ele seja o menos possível responsável.

Um boitatá de olhos de césio espreita no planalto central do país.

Ao lidar somente com a máquina, a ficção científica transforma-se num gênero de cenários, um arremedo de vaudeville, estéril e inconsequente.

Não viemos criticar a função da máquina mas propor a estética do homem.

Precisamos deglutir urgentemente, após o Bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, o alienígena mauzinho, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz, o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.

A ficção científica brasileira não existe.

A cópia do modelo estrangeiro cria crianças de olhos arregalados, velhinhos tarados por livros, escritores sem leitores, homens neuróticos, literaturas escapistas, absurdos livros que se resumem as capas e pobreza mental, colônias intelectuais, que procuram, num grotesco imitar, recriar o modus vivendi dos paises tecnologicamente desenvolvidos.

A ficção científica nacional não pode vir a reboque do resto do mundo. Ou atingimos sua qualidade ou desaparecemos.

A produção literária brasileira, no gênero de FC, à exceção de reduzido rol de obras, é de uma mediocridade horripilante.

Uma mula sem cabeça cospe fogo radioativo pelas ventas.

Emulamos tecnologias sem conhecê-las.

Um Saci Pererê matuta, com uma prótese de vanádio, masca mandioca, tritura paçoca e arrota urânio enriquecido.

A alegria e a prova dos nove.

O homem prova, todo dia, que não é merecedor da tecnologia.

Queremos despertar o iconoclasta que jaz em todo peito brasileiro.

Morte aos adoradores de máquinas.

Um caipora verde amarelo devora hambúrgueres, destrói satélites, deglute armas e destroça tecnologias.

Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante.

SUPERNOVA

São Paulo, 1º ano após o desastre de Goiânia.

IVAN CARLOS REGINA
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sexta-feira, 25 de março de 2011

História do Futuro


(Texto do Cilindroide, de Cirilo S. Lemos)

"Cheguei até este infográfico cthullhesco através de um tuíte do Octávio Aragão. Pensei em um monte de maneiras de imprimir essa imagem e colocar numa moldura, tão impressionado fiquei. A imagem está na página da Wired. Clique aqui para apreciar essa belezura em alta definição. Um desafio: tente ler todas as referências ali e encontrar as repetidas (é, eu fiz isso). Em tempo: o autor dessa belezura é Ward Shelley."



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Star Wars vs Star Trek


"Em todo caso, quando se trata de retratar o destino humano, onde você preferiria viver, supondo que fosse um cidadão comum e não um semideus? Na Federação de Roddenberry ou no Império de George Lucas?"


No século passado (1999), li um ensaio de um autor de ficção científica criticando e analisando "politicamente" Star Wars e Star Trek. Eu devo ter guardado o ensaio, mas o perdi em meio à papelada...

Rezei à Santa Tecla e ao Google-Pai-Universal-dos-Burros e encontrei este artigo escrito por David Brin, autor de "The Postman" (que virou um filme medíocre com Kevin Costner, "O Mensageiro"). O nome do danado é "O Despotismo de Star Wars e o Populismo de Star Trek".

Todo o artigo é interessante (Eu faria algumas ressalvas, mas quem quer saber o que penso?), porém um tanto longo para postá-lo integralmente aqui. Seguem os links para a versão em inglês e para a versão em português.

Abaixo, irei colar um trecho que achei especial:

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Em “O Herói de Mil Faces”, Joseph Campbell mostrou como praticamente toda cultura antiga e pré-moderna utilizava uma técnica ritmada própria para contar histórias, retratando os protagonistas e antagonistas com certas motivações e traços de personalidade constantes, num padrão que transcende as fronteiras de língua e cultura.


Nessas narrativas clássicas o herói começa relutante, mas há augúrios e sinais que antevêem sua grandeza predestinada. Ele recebe conselhos sábios de um mentor, ganha companheiros inesperados, porém leais, enfrenta uma série de crises cada vez mais críticas, explora o poço de seus próprios medos e emerge vitorioso, levando a vitória ou o talismã de volta a sua tribo, seu povo ou sua nação, que o admira profundamente.

Ao lançar luz sobre essa tradição venerada dos contadores de histórias, Campbell de fato trouxe à tona alguns traços espirituais que parecem ser comuns a todos os humanos. E sou o primeiro a admitir que é uma fórmula fantástica.

Campbell, infelizmente, destacou apenas qualidades positivas, ignorando por completo um lado muito mais sombrio – como, por exemplo, esse modelo padronizado de fábula acabou sendo cooptado por reis, sacerdotes e tiranos que o utilizaram para tecer loas à importância suprema das elites que se erguem acima dos homens e das mulheres comuns. Ou, então, a idéia implícita de que devemos sempre nos restringir a traçar variações sobre uma única história, um único tema, repetindo à exaustão a mesma trama previamente prescrita.

Aqueles que elogiam Joseph Campbell parecem enxergar nessa uniformidade um motivo para nos alegrarmos. Mas ela não o é. Na medida em que desempenham um papel importante no trágico atolamento de nosso espírito, os mitos dos semideuses ajudaram a reforçar a mesmice e a imutabilidade durante milênios, imobilizando as pessoas de quase todas as culturas, desde Gilgamesh até os heróis das histórias em quadrinhos.

É essencial compreender o afastamento radical desse padrão que é dado pela ficção científica genuína, que tem suas origens numa tradição literária diametralmente oposta à primeira, formando um novo tipo de narrativa que muitas vezes se rebela contra os arquétipos que Campbell venerava. Trata-se da crença rebelde no progresso, no igualitarismo e na possibilidade de existirem histórias em que todos saiam ganhando – e também na possibilidade, pequena, porém real, de existirem instituições humanas decentes, sem falar no questionamento compulsivo das normas previamente estabelecidas.

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(Imagem "Our Lord of Darkness" do italiano Franco Brambilla)


P R O J E T O P O R T A L B L O G F E E D