Projeto Portal foi uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa durante os anos de 2008 e 2010. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — foi distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Seis números (de papel e tinta, não online). O título de cada revista homenageou uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.
Idealização: Nelson de Oliveira | Projeto gráfico e diagramação: Teo Adorno Revisão: Mirtes Leal e Ivan Hegenberg | Impressão: LGE Editora
"Escritores de ficção científica, lamento dizer, não sabem de nada. Não podemos falar sobre a ciência, porque nosso conhecimento é limitado e não oficial e, geralmente a nossa ficção é terrível.
Alguns anos atrás, nenhuma faculdade ou universidade jamais teria considerado convidar um de nós para falar. Fomos misericordiosamente confinados a revistas populares (pulp), que não impressionavam ninguém.
Naqueles dias, os amigos me perguntavam: "Mas você está escrevendo alguma coisa séria?" o que significa "Você está escrevendo algo diferente de ficção científica?"
Nós desejamos ser aceitos. Nós nos exibimos para sermos notados. Então, de repente, o mundo acadêmico nos enxergou, e fomos convidados para dar palestras e aparecer em convenções - e imediatamente nós fizemos de nós mesmos idiotas.
O problema é simplesmente esse: O que um escritor de ficção científica sabe? Em que tópico ele é uma autoridade?"
Trecho de um artigo de Phillip K. Dick, "Como construir um universo que não desmorone dois dias depois" cuja tradução está sendo postada no Capacitor Fantástico.
Algumas teorias dos gêneros literários procuram defini-los em termos da resposta emocional que provocam no leitor. O gênero do horror (ou terror) é o exemplo mais à mão. Não importa a época em que se situa, o estilo literário em que se expressa, não importa tema, ambiente, personagens, desenvolvimento... O que conta é que é uma história escrita com a intenção de provocar essa resposta na pessoa que lê. E que essa pessoa procure esse livro com a intenção clara de passar por essa experiência emocional.
O mesmo pode-se dizer do humor e do cômico; o mesmo pode-se dizer também da pornografia e do erotismo. As histórias podem se passar em qualquer época e qualquer lugar, em qualquer ambiente; tudo isto é irrelevante. Se cumprirem aquele objetivo – provocar o riso, ou a excitação erótica – pertencem ao gênero, e estamos conversados.
No caso da ficção científica, a resposta procurada por autores e leitores já foi formulada de diferentes maneiras. Definições mais antigas usam a expressão “sense of wonder”: a sensação de deslumbramento, de maravilhamento, diante de algo surpreendente, grandioso, a ponto de modificar nossa própria noção sobre o universo. Em fases posteriores, com autores e leitores mais exigentes, mais experimentados, mais questionadores, surgiram expressões como “conceptual breakthrough” (Peter Nicholls) e “cognitive estrangement” (Darko Suvin).
Ambos os conceitos são tentativas de fazer uma sintonia fina no “sense-of-wonder” tradicional, formulado na década de 1930. Nicholls criou a expressão “conceptual breakthrough” (mais ou menos “ruptura conceitual”, o ato de destruir uma visão do Universo e ter acesso a uma visão mais complexa, como o pinto rompe a casca do ovo e descobre o mundo) enfatizando esse poder da FC de nos fazer enxergar de repente a verdadeira realidade. É a imagem daquela famosa gravura em que um sujeito se arrasta até o horizonte, fura um buraco no céu, enfia a cabeça por ali e vislumbra mecanismos espantosos. É a visão do astronauta Bowman em “2001”, quando penetra no monolito e percebe ali o portal para hiper-dimensões.
Darko Suvin, um crítico influenciado pelo marxismo e pelas idéias de Bertolt Brecht, propôs o termo “cognitive strangement” que significa “estranhamento cognitivo” ou “distanciamento cognitivo”. Para ele, a FC nos possibilita ter de repente uma visão “de fora” das coisas, distanciada, livre das idéias preconcebidas, como se estivéssemos vendo aquilo pela primeira vez; e isto nos dá um conhecimento mais profundo do que estamos vendo. Como Newton vendo a queda de uma maçã, percebendo a atração do planeta Terra, e intuindo a partir disto todo um sistema de forças. Ou como Einstein vendo um trem passar a toda velocidade e percebendo que os passageiros do trem se consideravam imóveis relativamente uns aos outros.
São essas “respostas mentais” que definem a FC, e não a presença de espaçonaves, alienígenas, robôs, pistolas de raios, etc.
* * * * * *
(Para outros artigos de Braulio Tavares envolvendo Ficção Científica, clique AQUI. )